quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Uma Tarde Ordinária.

 Seria imensamente gratificante ver todo mundo reunido. Seria ainda mais gratificante se estivesse vendo todo mundo reunido por um telescópio. Metade não se via ha quase vinte anos. Menos cabelos mais rugas mas os olhos não envelhecem jamais.

A porta abriu. Entra um homem. Senta-se e fica olhando para o canto do teto. Cada vez que a porta abria dava pra ouvir o carnaval na rua. Mas ai ela fechava e voltava o ar mudo, o silencio tumular.

Atras da parede de madeira alguem puxou uma descarga, uma porta rangeu. Alguns passos pelo corredor de madeira terminaram numa batida de porta, lenta e pesada. Entreolham-se os olhares. Espera. Tosse. Sorriso. Silencio. Mas ai todos se viram para uma mulher que se levanta e diz:

- O que devo fazer? Vocês não me disseram que viria mais alguém. Mais uma vez todos se entreolham, constrangidos. Nenhuma resposta. Mais uma batida na porta e a mulher, sem paciência, se encaminha para finalmente abri-la e ver quem está do outro lado. Alguém abre a boca e arregala os olhos. Outro lhe faz sinal para que se cale e um terceiro, bem mais velho que os demais, com seu olhar experiente e algo sutilmente cínico, levanta a mão e diz:

 - Esse filho da puta vai meter a gente numa grande enrascada. Cochicho geral. Silencio, sussurrou ele um pouco alto, temos que dar um jeito de tira-lo daqui. Com um gesto de calem a boca abriu a porta e com um sorriso saudou o visitante.
 - Padre, que bom ve-lo aqui! O padre olhou-o de cima abixo, fez uma carranca e foi sentar-se ao lado do homem que olhava para o teto. Com a mão no seu ombro ele o conforta:
 - Meu filho, sei que é um momento duro mas o que vou lhe dizer não pode ser evitado. Você é o escolhido. Alisa o ombro do homem uma ultima vez e firma a mão sobre a cruz pendente de seu peito.
 - Não vou fazer. Protesta o homem ainda olhando pro teto. A mulher da porta se aproxima e o velho solta uma gargalhada alta. Silencio e introspecção se segue. O padre toma a iniciativa.
- Você precisa. Saca do bolso o aparelho eletrônico estende ao homem que finge não perceber. Alguém bate a porta novamente e todos congelam em seus lugares. - Quem é agora? Deixa escapar uma voz amedrontada.
- Oh meu Deus, o que serâ de nós, diz uma velhinha que até então ficara num canto sem dizer uma palavra.
- Não se preocupe vovó, diz a jovem ao seu lado, tudo acabará bem.
- Vai depender do que vc considera terminar bem minha jovem, intrometeu-se um cavalheiro baixo com vastos bigodes.
- Cale-se Antenor, disse a velhinha, isso aqui é mais sério do que vc pode imaginar nesta sua cabeça cheia de minhocas.
- Talvez disse Antenor, mas não se pode absolutamente prever o que será dito.

A porta se abre e dois policiais adentram o recinto carregando uma caixa de papelão quadrada, do tamanho de um litro de leite. Colocam a caixa sobre a mesa e dão um passo para tras. O mais jovem dos policiais, então pergunta:
- Quem de vocês pode nos explicar o que significa isso?
- Isso o que? Pergunta a loira sexi enrolando uma mexa dos longos cabelos no dedo enquanto esticava os olhos para ver o conteúdo da misteriosa caixa.
- Ora - ora! Vejo que os senhores abriram uma coisa que não lhes pertencia... - disse o cavalheiro dos vastos bigodes.
- Bem - o policial mais velho olhou para os lados constrangido - não havia nenhum destinatário ou remetente, mas abrindo a caixa encontramos este endereço.
- Acho que agora não falta mais ninguém, não é Antenor? - disse a velhinha, sua mãe.
E como vou saber? - respodeu Antenor visivelmente mal humorado, provocando um surto de risinhos dissimulados nos presentes.
- Esta na hora! - disse o padre enxugando rapidamente uma lágrima teimosa.
- Eu não vou fazer!!!! Escolham outro! - gritou o pobre escolhido.
- É preciso! - disseram em uníssono os três homens que se sentavam sob a janela.
- Ah faz sim, amorzinho... Você vai conseguir! - disse a loira fazendo um biquinho.

Depois de pensar por alguns instante, o homem levantou-se com o aparelho cuidadosamente instalado na concha formada por suas mãos e encaminhou-se até a mesa. Com a respiração suspensa, todos os presentes fixavam o olhar para as mãos do pobre rapaz sobre a mesa, quando alguem gritou
- Espere! Deixa que eu faço. Levantou-se um dos homens sobre a janela com um sorriso suspeito sobre os lábios.
- Não senhor, você não pode. Interpôs-se o padre com um tom grosseiro mais sem intenção de o ser.
- Deixe o escolhido fazer o que tem que fazer. Apoiou-a velhinha. -diga alguma coisa Antenor!
Antenor não disse nada.
- O que esta acontecendo aqui? o policial questionou-os
- Logo descobrirá. Afirmou o homem de vastos bigodes.

Sem que mais qualquer um pudesse interrompê-lo com palavras ou ações o homem escolhido colocou a mão dentro da caixa de onde tirou um fone de ouvido, plugou-o ao aparelho que segurava na outra mão e em seguida voltou a apalpar o interior da encomenda, porem seu pulso agora fora detido firmemente por um dos policiais de expressão tensa.
- Nem pense nisso. Sussurrou.

Num gesto inesperado e tremendo dos pés à cabeça, o pobre rapaz joga o aparelho dentro da caixa de papelão sobre a mesa. O silêncio no ambiente só é interrompido segundos depois por uma pequena explosão e intenso brilho que preenchem todo o espaço. Boquiabertos os presentes assistem ao nascimento de pequeninas estrelas ,que numa espécie de dança cósmica flutuam pela sala.

Sorrindo o policial diz:
- Puxa! Se eu soubesse que era i s s o ! - disse enfatizando o "isso". O policial mais velho coça a barba e, num gesto um tanto brusco, afasta o homem dos vastos bigodes para chegar perto da caixa.
- Espere! Você não pode... - começou a loira.
- Ah! Posso sim! - responde antes que ela continue.
- Não mesmo! Eu é que vou! - gritou a velhinha.
- Parem! - grita o escolhido e todos se tornam imóveis. Apenas os olhos perplexos se movem de um lado para o outro, como a procurar socorro.
   
Calmamente e sorrindo, o jovem toma o aparelho e o lança à caixa. Então, olha de um para o outro dos presentes e, sem tremer, estufa o peito com satisfação e proclama:

- Voces podem se coçar de inveja, podem ficar com urticarias e manchas vermelhas na barriga mas quem inventou as regras de amigo secreto não fui eu portanto esse iPhone agora é meu!

Suzana Palanti, Youkai, Sueli Aduan e Sergio Cajado

domingo, 30 de janeiro de 2011

Uma tarde ordinária


Seria imensamente grafificante ver todo mundo reunido. Seria ainda mais gratificante se estivesse vendo todo mundo reunido por um telescópio. Metade eu não via ha quase vinte anos. Menos cabelos mais rugas mas os olhos não envelhecem jamais.

A porta abriu. Entra um homem. Senta-se e fica olhando para o canto do teto. Cada vez que a porta abria dava pra ouvir o carnaval na rua. Mas ai ela fechava e voltava o ar mudo, o silencio tumular.

Atras da parede de madeira alguem puxou uma descarga, uma porta rangeu. Alguns passos pelo corredor de madeira terminaram numa batida de porta, lenta e pesada. Entreolham-se os olhares. Espera. Tosse. Sorriso. Silencio. Mas ai todos se viram para uma mulher que se levanta e diz:
-

Existindo!



Da janela de onde estava até a colina mais proxima deveria conter a distancia necessaria para se voltar ao ponto de partida. Podia ser um pouco menos, não sei. Fiquei dentro deste espaço por tanto tempo que as distancias parecem mais voláteis do que a fisica permitiria.


Logo de manhã a morte parecia mais uma grande colecionadora de folhas secas, coletora de cascas sem vida que outrora rompiam em descontrolados risos pelos salões. Resta apenas a lembrança. Mas onde vai morar finalmente esta lembrança? Talvez em algum lugar bem escondido do mundo. Apenas as nuvens movem-se. Em estado de perplexidade experimento as sensações do ar. Penso estar voando mas não me movo. Nada se move.


Olhei em torno mais uma vez e percebi a distância entre todas as coisas: da janela ao sonho, das sensações ao espanto, do movimento ao repouso. Distância encantatória entre o sentir e o dizer, o estar no mundo e fora dele, poderia eu simplesmente me desconectar, perder o interesse, mergulhar, afogar, voar, simplesmente plainar, nadar no ar e chorar... mas não. Acordei e percebi alegremente que meu interesse todo está em olhar. Ver e ser.


Olhei o alto e o baixo, o branco e o preto, a gravata e o paleto, a letra e a melodia, o dentro e o fora. Olhei e re-olhei a retrospectiva dimensional absoluta de meu ser para integra-la ao todo onde tudo possivel. So o que faltou foi tempo. 
O tempo, é o fogo onde todos nós ardemos.


Suely Aduan, Emilia e Cajado

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Sermos seres


Cada um percebe como pode, ou como pensa que pode. Ou tudo é percebido por conta de seus contornos visuais. Quer dizer que se eu isolo um objeto, tenho o vazio, uma vez que as coisas não têm contornos senão em relação ao seu contexto.
Quero dizer, o vazio onde estou é o vazio onde existo e observo. Observo o todo que nada contem alem de minha existencia e imagino as fronteiras destes limites. Neófito em assuntos espaciais reflito minha imagem num infinito imponderável onde as formas perderam-se para sempre.
Estamos todos num vazio com gente ao nosso ao redor mas aqui o silencio é total e vazio mesmo. Silêncio total e vazio. Mas contraditorimente é a Terra, território do homem, dos espaços imensamente ocupados por vozes, sons, formas, cores.
Limites do meu caminhar numa paisagem em constante movimento aleatório, compasso descompassado de meu andar impreciso, misterios que enchem meu olhar. No entanto ainda busco e vou descobrindo nos nuances desta existencia um puro fio de prata que me conduz por estas paragens inauditas, inesperadas.
As distancias são percorridas pelos sentidos, repletas de significados, contornos que dão forma, contextos incontestáveis, o som dos passos sobre o chão são toques de vontade e liberdade, como sinos, cheios estão os sons de sentimentos e do prazer satisfeito em sua navegar mutável, razão e desequilíbrio sobre as águas e ondas da vida.
É nessa quase brincadeira, nesse navegar, nesse jogo de presenças/ausências, o que parecia silêncio, vazio, torna-se o espaço do entre espaço. A fronteira rompe-se não há linhas divisórias entre o real e o absurdo e o nosso olhar carregado de ancestralidade prossegue. Somos apenas caminhantes em busca de uma alvorada cromatica, em busca dos significados e significantes de nossa existencia, em busca de um caminho qualquer.
Suely, Mira, Youkai e Cajado

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Flutuamos



Onko é um bom rapaz. Um pouco alto para a sua idade. Ele senta-se e olha para o alto. Suspira aliviado porque ja não ha mais tempo. Sente um pouco de sono. Boceja. Pensa em tudo aquilo que teria de dizer. Sentia que ela não viria, mas mesmo assim ainda esperava. Estava ansioso, porém com receio.


Esperou por toda a tarde e quando ela chegou sentiu que não tinha mais sono. Esperava pela noite que lhe traria os sonhos. Mas ela tambem passou e chegou o amanhecer. Onko ainda estava la. Pelo que se sabe, Onko teria trocado sua ansiedade por um sorvete ou por um conto. Teria trocado seus minutos receosos por muito tempo dormindo. Olhou para o pulso e lembrou que não tinha mais relogio. Havia trocado por liberdade. So não lembrava aonde a havia guardado.


E depois de uma brisa passar por seus cabelos, olhou para baixo, ali sobre o chão onde sua sombra deveria estar projetada não havia nada, sua sombra prova de sua matéria se apossou de sua liberdade e correu pelo mundo. Nem sempre a troca funciona do jeito que se espera, era o que dizia o mestre dos trilhos. mais ali estava Onko, que cochilou ao sol pensando em tudo aquilo que teria de dizer. Sem sombra e sem reflexo seu pensamento estendia-se alem do mundo, viajava veloz por planetas e tempos ja ha muito esquecidos pelo universo.


O sol quente ardia em sua fronte e o fez acordar. Não estava mais sentado. Agora deitado na grama olhava as nuvens passarem. Nenhuma idéia lhe ocorria. Ao fechar novamente os olhos viu centenas de pontinhos pretos dançando dentro de suas palpebras. E que felicidade aquela sensação de estar perdido ! nem as nuvens e todo aquele céu iriam lhe indicar o caminho, melhor assim, feliz assim.


Em algum lugar encontrava-se flutuando mas isso não lhe importava pois o flutuar absorvia toda sua atenção. Não pensava onde estava nem como nem quando mas sentia fluir por sua alma aquele estado de espirito ascendente. Foi subindo, subindo e sentiu as copas das arvores abaixo sussurando algo atraves do farfalhar de suas folhas secas. Diziam um intermitente murmurio que não podia compreender mas podia entender. Era parte dele. Era como passar do etéreo e entrar em um aroma indefinido, só, sozinho, sem espera, sem palavras, nem ar, nem água, nada. Era o nada absoluto em que Onko sentia-se cheio do todo perfeito, era o momento pássaro ,visão fontana determinando seu movimento ao encontro de tudo aquilo que teria de dizer.


Vagando pelo etéreo, plano onde a energia flui pura e onde pode-se sentir a essência do que se realmente é. Mais a jornada estava em seu tempo de conclusão, como um rio que arrasta um tronco, sua consciência foi tragada lentamente e depois de não se sabe quanto tempo, pois pode ter sido muito, ou muito pouco, estava de volta a si mesmo, estava junto à matéria física que confinava e protegia sua alma, abriu os olhos e olhou para o céu, ali acima dos ventos e junto às estrelas estava ela a lua, lua esta que broqueada uma vez pelas nuvens não estava preparada para ouvir, embora presente no dia que pode ter sido o anterior ou outro qualquer, agora estava ali e chegara à hora de dizer aquilo que era preciso. Levantou-se e percebeu que sua sombra estava de volta e lhe entregará a liberdade em mãos, como matéria menos livre de todo seu ser, pediu as devidas desculpas, mas ela não pode resistir ao apelo do mundo, e agora com seu reflexo de comprovação que existia, sua sombra, o reflexo da luz da criação, a lua, estava na hora de proclamar o destino, um caminho de luz amanteigada surgiu e a lua o iluminou desta vez sem nuvens para atrapalhar seu vagar.


Onko sabia quando chega a hora de dizer verdadeiramente a língua trava, falar coisas era fácil, mais nesta situação que tinha de expressar algo mais difícil do que o normal as forças lhe faltaram e por um momento não abriu a boca. Mais depois respirou e disse:


- Muito boa noite senhora dos céus noturnos, Irmã lua como esta? Disse respeitosamente, mais não houve resposta. A lua era uma ótima ouvinte mais só falava quando era extremamente necessário, pois não gostava de sua voz, diferente do vento que uiva e do mar que estronda a lua se cala.


- Bom, continuou Onko, vou começar pelos tópicos, então tenho que falar sobre as marés, sobre os sonhos, sobre os cabelos, sobre o campo magnético, sobre Marte, sobre os astronautas e deixe-me ver, sobre queijo e sobre lobos e acho que tem algo mais que não consigo me lembrar agora, mais em todo caso deixe-me começar. A lua em respeito silencioso apenas esperou e Onko então cumprindo sua promessa continuou:
- O controle sutil das marés neste ano não esta agradando os senhores peixes que por decisão de seu alto conselho dos mares presidido pela grande lula expressa o seguinte pedido:


- Queremos que se afaste um pouco da órbita, pois a maré cheia constante esta prejudicando os corais e os manguezais costeiros e as colheitas de plâncton este ano não estão boas para nenhum dos agricultores dos oceanos Indico e Atlântico, causando fome aos mais diversos tipos de cardumes e aos que deles dependem. Onko então percebeu que manifestava seu pensamento adormecido e que belas palavras foram ditas sobre as marés, sobre os sonhos, sobre os cabelos, sobre o campo, mas tudo em vão.


Fecha os olhos e pensa em tudo aquilo que queria dizer. Mas nada diz, sabe que não poderia mudar o estado das coisas e então, apenas flutua para longe enquanto ve a lua, distanciando-se no zênite.




Escrito por:  Tina   Cajadomatic   Youkai   Emilia   sueli aduan

sábado, 4 de setembro de 2010

A tarde que passava. (descrever sem engessar)

Onko é um bom rapaz. Um pouco alto para a sua idade. Ele senta-se e olha para o alto. Suspira aliviado porque ja não ha mais tempo. Sente um pouco de sono. Boceja. Pensa em tudo aquilo que teria de dizer.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

domingo, 8 de agosto de 2010

Um pouco mais de paciência.

Na escadaria por onde se estendia a longa fila podia-se ler numa tabuleta:
Pedimos um pouco mais de paciência

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Bom, back in business

acho que a gente podia tambem as vezes so debater uma frase ou um tema mas sem personagem, como nos mesmos, escrivinhentos ai sim podemos ser no sense, cruzar comentarios, brigar, elogiar claro que sempre visando um texto final. ... hum? e? simbora?

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O monstro da rua principal


Precisa-se de escritores para metade de meio periodo. Era o que se podia ler naquela plaquinha.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Deus o quiz



Ontem foi um dia santo. E é desde 1264. Santos deveriam ser todos os dias, mas não o santo do Santo. O santo som dos sinos dento do peito que faz tum 

tum 

tum 

e para. Depois de um suspiro ele faz de novo.

 Tum. E para.



A ultima bruxa foi queimada na Suiça em 1731 e nem bruxa era, nunca existiram bruxas elas eram curandeiras que concorriam com o poder curativo da fé. É. Todos os dias deveriam ser profanos desde 1264. Mas não o santo do Santo.

Bruxas: mulheres que curavam, do sânscrito: Sábias. É no cristianismo que foram chamadas de bruxas. No período neolítico já existia rituais e práticas de bruxaria, rituais simbólicos.

 Todos os dias deveriam ser sagrados desde 1264. 

Profanos só a mente e coração. Só está a mente.
 Mente. Eternamente. Todas as mentiras sagradas foram profanas desde 1264.
.

Só o coração 
entende a mente.
 Eternamente.

 Todas as mentiras foram sagradas e profanas, duas modalidades de ser no mundo desde muito antes de 1264. Desde quando todos ainda nem sabiam, o que era um dia santo.

 Quando santos eram todos os dias.

"Um canto, no banco, um instante, eterno, todos os santos, observe, capim santo, no vento, no campo, tempo, santo pensamento. É teu talento que me comove. Tua dor que me dói. São todos os dias que vejo entrando e saindo sem que possa ao menos tocar tua mão. Toda a amargura deste silencio que miseravelmente vou digerindo, aqui no escuro desta cela. 

A luz privou-me do beneplacido de sua presença e me fez encolher neste canto, no chão. O banco virado, o vento despenteando o desalinho do tempo, a saudade. O corpo bento, o pensamento profano. Sem alarde a tarde escura se adentra em mim com um toque de amargura,me fere,na dor santa da rosa sem espinhos entre os muros emparedada.

o vento me toca em seu caminho torto,
o toque dos sinos ,o suspiro entre as sedas e a espuma das nuvens. Como um vento passageiro assim é a vida do homem, feito a passaro em seu vôo livre, nossos pensamentos profanos, senhor absoluto de dias santos, seguem. Ferimos e somos feridos.

 E é desde muito antes de 1264. Mas Domingo é sol. Santo. Pensamento dourado, incapaz, um fiapo. Um banco, de branco, é belo. Fecho os olhos e canto. Empresto minhas asas. Ao ar. Ao vento. Ao capim santo. Ao Santo. Ao seu encontro. Não te encontro. No canto, no banco, no tempo. Ano Domini 1264."

O padre morreu. 

Foi encontrado num canto de sua cela com cartas de amor em suas mãos, de um amor que nunca teve, saudades de um tempo que para ele nunca existiu.


Foi na mesma noite naquele domingo do ano de 1264

Tina, Sueli, Emilia, Cristina & Sergio
.

domingo, 30 de maio de 2010

O dia em que a Terra mudou


O planeta Terra tem 4.57 bilhões de anos, o protótipo do homem 3 milhões e meio de anos e o homen "quase" sapiens 150 mil anos. Nossa civilização tem 50.000 anos, escrevemos ha 10.000 e rezamos pro Padim Pade Ciço e cia há 2000 anos. O computador ja fez 40 anos, internet 30 anos e até então nada no universo da comunicação global havia dado um salto.

Dai vieram consecutivamente, bbs, icq, msn, skype, google, orkut, facebook e sabe la zeus o que mais. Tudo no pacote dos ultimos 20 anos até o dia de hoje. O facebook alcançou a cifra de 35 bilhões de postagens. Estamos começando a desenvolver uma consciência global.

Esse é o momento, a era de Aquarius ja começou e 2012 esta chegando... não sei se vai rolar algum vulcão nervoso, maremoto irado, meteoros gigantes, virus malintencionados, visitas extraterrenas, Dilma ou qualquer outra praga celestial mas que o mundo está mudando é uma verdade que não podemos negar.

Claro que ha entre o sul e a venezuela mais do que sonha a porcaria da política. A milenar e eterna corrupção, a hipocrisia dos bajuladores, a ganancia da industria, a indiferença dos senadores o torpor do populacho hipnotizado pelo BigBrother, o manipular das massas ignorantes, os predios que não param de se multiplicar, os parques que viram estacionamento, os cães que diminuem pra caber nos apartamentos, as arvores que somem pra não soltar folhas na calçada, as florestas devastadas para os assentamentos, as vendas de armas, os olhos que não se abrem nunca, os impostos que se multiplicam,

Ilustração Sergio Cajado

segunda-feira, 17 de maio de 2010

José


José saiu de casa de manhã.
José andou duas quadras.
Esperou o onibus na esquina.

José desceu do onibus.
José andou quatro quadras.
José entrou no prédio de vidro.
José entrou no elevador.
José entrou em sua sala.
Sentou.
José ligou o computador.

José abre o jornal sobre a mesa e espalha papeizinhos pelo chão do escritório.
A janela se abre e mais formularios e notas voam pela sala.


José lê o jornal. Não lê os papeis voando.
José foca a noticia.
José trabalha uma opinião.
José tecla um texto, depois pausa, vai tomar um café.
Antonio comprimenta José na cozinha.
- Bom dia.
José responde com um sorriso meio torto.
- Oi.
José pega um maço de guandanapos.
José fica com um.
José usa o guardanapo, o resto, deixa voar com a brisa.
Nao lê os papeis voando.
José é calvo, sorri pouco.
José tambem chamava-se seu pai
José fica olhando para o guardanapo em branco, perdido em reflexões. Alguns papeis voam pela janela e continuam seu voo solitario por entre os predios da cidade barulhenta. Mas eles não ouvem o barulho.
Nem José.

E José foi então até a janela e notou que alguns dos seus papeis voavam pela janela afora. E ficou ali parado olhando por um tempão contemplando. Sem nenhum outro movimento, nem mesmo os pés. A beleza dos papéis ao vento. Ele se deixou levar e nem se deu conta da importância desses guardanapos, papéis, árvores, tantas árvores, poucos papéis.
José fez o seu papel, pena que voaram.
José jurou ao pé da árvore.
José não plantou aquela árvore.
José chorou.


O planeta do José, o gosto amargo da tarde na cidade, o céu laranja.
José e o cinza.
José é normal, passageiro da via, vazia, da vida sem asas, de papéis brancos sem linhas.
José mergulha, tudo azul marinho.

José se lembra dos dias de juventude.
José se lembra daqueles sonhos.
Os sonhos guardados no armário da alma de José. E um dos sonhos de José era viajar numa motocicleta. Tal qual os papéis, José voa pelas ruas.
Afrouxa a gravata. Correndo em direção a uma revenda de motos. Após algumas quadras, ele para e a vê. Estava alí, parada, um de seus sonhos de juventude. Sonhos que voaram.

José voltou quatro quadras.
José entrou no prédio
José entrou no elevador.
José entrou em sua sala.
Sentou.
José ligou o computador.
José sorriu de leve para um número.
José parou.
José, você não pode.
José girou na cadeira, como numa roleta.
José foi parando. E parou.


Olhe José, você não deve seguir pela vida, pela via, pela rua vazia. São almas José, são gente, são tão diferentes.

José abaixa a cabeça, leva as mãos ao rosto. Pobre josé, chora copiosamente até sua camisa ficar molhada mas a tristeza não passa.
José abre a janela e olha pra o horizonte de prédios. Muitas pessoas, muitos sonhos, muitos papéis para representar, muitos papéis que voam.
José fecha os olhos e salta pela janela. Seu corpo vai voando e vão voando os papéis que representou, voando para céu e levados pelo vento.

Sueli, Youkai, Emilia, Alexandre, e Sergio
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sexta-feira, 14 de maio de 2010

José

José saiu de casa de manhã.
José andou duas quadras.
Esperou o onibus na esquina.

José desceu do onibus.
José andou quatro quadras.
José entrou no prédio de vidro.
José entrou no elevador.
José entrou em sua sala.
Sentou.
José ligou o computador.
.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Pequenos atos


Todos os raciocínios do homem não valem
um único sentimento da mulher
Voltaire

- Quem sabe eu ainda/ Sou uma garotinha/ Esperando o ônibus/ Da escola, sozinha/ Cansada com minhas/ Meias três quartos/ Rezando baixo/ Pelos cantos/ Por ser uma menina má... Cantarolando minha musica predileta entrei na sala, mas me calei imediatamente, amedrontada. Os olhos de Dna Geraldina, cravados em mim, diziam: Senta.
Foi uma eternidade da porta até a carteira que me esperava fria e monstruosamente educada, cheiro de peroba, madeira escura, mas bela e instruída, essa carteira.

- Olha a postura, me disse calma e seriamente. Endireite este tronco, ou vai ter problemas com a tua coluna. Endireitei-me. Ela virou-se de costas para mim, deu uns dois ou três passos em direção a janela e olhando para a quadra de esportes que limpa e convidativa nos aguardava naquela bela manha. Dona Geraldina, velha astuta, percebeu o nosso entusiamo, a nossa energia,afoitos que estavámos para o jogo, para o brincar. E, com um falso sorriso entre os lábios dissimulava seus verdadeiros planos.

- Hoje, excepcionalmente, ficaremos aqui na sala para ensaiarmos uma canção que apresentarmos em razão do aniversário de 50 anos de nosso colégio que será na próxima semana. Iremos cantar Carinhoso, de Pixinguinha.Você foi escolhida para fazer a voz principal como no ano passado. Só então voltou a olhar no meu rosto. Percebi no dela um certo prazer que já conhecia e que sabia que sentia ao poder me impor sua vontade.Trazia no olhar altivo uma satisfação um tanto sádica que ela disfarçava com fingida indiferença. Eu a conhecia bem e sabia que estava jogando, apenas para seu deleite. Decidi, então, participar do seu jogo, e diferentemente do ano anterior não demonstrei minha insatisfação. Ao contrário,fingindo imensa alegria, disse-lhe;

- Adoraria cantar. respondi e abri um largo sorriso. Uma ruga vergou na testa de Dona geraldina. Continuei entao com o jogo satisfeita.
- Quando começamos o ensaio?

A turma me esperava para começar o primeiro ensaio. A maoria tinha um sorrisinho maroto nos lábios. Sabiam que algo iria acontecer. Dna. Geraldina tentava disfarçar sua ira, mas dava para sentir sua irritação. Pronto, já estávamos todos em posição de coral, bocas fechadas, aguardando um comando, e eu enorme, gigante, como uma águia, pronta para voar por cima da enorme majestade e mestra com a minha voz !

Não que eu realmente cante bem, se me lembro bem do ano passado, fiz um esforço discomunal para conseguir aquela proeza, fazendo Dona Geraldina engolir a própria arrogância, ao perceber que sua neta teria sido preterida a mim! Agora penso que mais uma vez tenho a oportunidade de provar o meu valor, que devo me esforçar, dar o máximo, e cantar de um jeito que Dna Geraldina..., mas derrepente me dei conta do absurdo da situação. Provar o quê e para quem? Não, essa não era eu. Esse jogo tinha ido longe demais. Hoje percebo fui vítima de bullying, por assim dizer, a bully, a valentona era Dona Geraldina. Às vezes eu passava horas arquitetando uma forma de irritá-la, podia ser sobre o cabelo com aquele corte rídiculo, ou ainda as roupas que mais lembravam uma amarração de linguiças, muitas ondulações e apertos, nossa, como ela conseguia respirar! Coitada! Dna Geraldina viveu uma vida muito complica mesmo. É o que falam pelos corredores da escola. Sempre tendo que dar satisfações de seus atos. Na juventude aos pais, depois casou-se e sofreu mais ainda. Respirar acho que ela não respira faz tempo.


Foi então, que resolvi tomar as rédeas, como sempre fizera, e ser eu mesma para varrer de vez o cinismo daquela criatura crassa que me vilipendiava ha tres anos. Enfiei o dedo no nariz e tirei uma meleca balouçante que grudou nos outros dedos. Olhei para ela e seu olhar fusilanime atravessou minha indiferença como se ninguem estivesse ali. Ela ia dizer alguma coisa mas eu me adiantei.
- Desculpe o mal jeito, mas eu não tava conseguindo respirar...
- ha maneiras mais educadas de se limpar o nariz, disse ela.
- A senhora tem razão, mas no momento esta foi a unica maneira que me ocorreu
- O que vc vai fazer agora com esta maravilha pendurada no seu dedo?
- tava pensando em comer, ja que saiu de mim mesma, e depois li numa revista que as cacas ajudam a desenvolver mecanismos de defesa contra gripes professora.
- Isso é muito nojento, va ao banheiro e lave suas mãos
- Sim senhora, disse eu sem perder a satisfação de ter vencido esta parte de minha guerrinha pessoal. Com uma repentina rouquidão na voz, disse-me:
- Agora que já fez a tua gracinha e livrou-se daquela nojeira, vamos começar.
- Sim senhora, retruquei, subitamente amável.
- Lenira, distribua estas folhas para a classe, disse a megera.
- Atenção, todas! Façam silêncio. Na primeira parte a Emilia vai cantar sozinha.E quando eu fizer este sinal - movimentou um braço como uma maestrina - vocês cantam a segunda parte junto com ela. Todas entenderam? Ninguem respondeu mas todas balançaram as cabeças afirmativamente. Ainda não terminou de distribuir, Lenira? Vamos rápido com isso. Todas conhecem a música, não é? Se alguem não souber vai aprender agora. Atenção Emília comece ao meu sinal.

- Um, dois, três...
- Meu coração, não sei porque. Bate feliz, quando te vê. E os meus olhos..... Cantei direitinho a música, aliás, manjadíssima em festas do gênero. As meninas entraram na segunda parte, ao sinal da megera, e tudo correu bem, até o final, lógico com uma desafinação aqui, outra ali, por parte do restante da turma. Eu cantei minha parte sem grande brilho, mas afinadinha. Ao final, Dna Geraldina disse:

- Temos muito o que melhorar e blá, blá, blá mais dez minutos. Cantamos a musica inteira mais umas três ou quatro vezes e a "querida mestra" ia fazendo observações aqui e ali, comigo e com outras alunas, etc...
- Agora vamos cantar a última vez, por hoje. Caprichem.
- Meu coração, não sei porque... Bate feliz, quando te vêeee. Desafinei um tanto exageradamente.
A classe caiu na risada.
- Silêncio! gritou a megera. Que foi isso, Emília? Mais uma gracinha? Outra dessa e você vai para a Diretoria.
- Não professora, não sei o que houve. Minha voz falhou..., eu disse com a maior inocência. E assim foi em três dias de ensaio: Quando ela menos esperava, minha voz, "falhava" e a classe caia na gargalhada.

Ela me mandava para a diretoria e a cada ensaio Dna Geraldina irritava-se mais, mesmo porque muito pouco a diretora podia,ou queria fazer. Tanto Dna geraldina, quanto eu, sabíamos que a minha atitude não era das melhores. A gracinha com a voz não era o pior, mas o incidente do dedo no nariz e a minha fala a respeito a pertubaram muito. E, ela não se conteve. Na primeira oportunidade me disse:- Fique a senhor sabendo que para meus resfriados prefiro vitamina C, e sarcástica concluíu: não se trata de ser moderna ou não. Questaõ de escolha, além é, claro, da beleza em enxegar aquelas bolinhas coloridas na água. Efervescência! Silêncio. E a palavra ecoou pela sala. Nesse momento, os olhos de Dna Geraldina encheram-se de lágrimas. Ela enfim percebeu. Então, era isso, uma questão de efervescência e e alegria, ela totalmente confortável nas vestes de um carneirinho anis ! sim aquele azul assim meio roxo fora de sintonia.

Um dia decidi que não iria mais provocá-la mas pensei que mesmo minha intenções sendo as melhores, ela nem perceberia. Seria ela tão frívola? Afinal ela também, assim como os brutos, deve amar. E mesmo não a provocando, não podia me furtar ao prazer intenso, nem resistir a tentação de expo-la mais uma vez ao ridiculo. Sabia que pagaria porisso, mas valeria cada segundo no purgatório.

Imaginei então um plano sardonico destinado não a humilha-la mas a faze-la motivo de riso e de chacota por onde quer que fosse.

Comprei uma dentadura usada que encontrei numa dessas lojas que vendem porcarias usadas e puz num copo com agua em cima da minha carteira. Quando ela viu a dentadura ali franziu a boca como se tivesse chupado um limão. A classe veio abaixo, todos cairam na gargalhada, pareceu que ela queria se certificar que não era a dela que estava no copo. Com a algazarra criada ela percebeu o golpe e saiu furiosa da sala de aula.

Fiquei imaginando qto tempo demoraria pro vigilante me chamar pra ir a diretoria me explicar e receber o aviso de suspensão. Mas não foi exatamente isso que aconteceu. Para minha surpresa ela mesma veio e me perguntou onde havia comprado aquela coisa eca ali no copo e porque ela estava ali em cima da carteira. Então eu lhe disse:
- Nunca mais se meta comigo sua velhota encardida, coróca, lambisgóia, podre, feia, jeca, brega e..e..! E foi neste momento que a terra se abriu e apareceu um diabão vermelho que me falou:

- Ô fia, ce ta cendo muitcho ruim com a coitada da veia, ucê vai tê que decê cumigo pra tomá banho de enchofri e servi de cinzero pros diabo la debaxo.

Olhei aquele sujeito horroroso com mal halito e pelos na orelha e senti um arrepio na nuca. Não iria com ele nem no MacDonalds quanto mais em algum lugar "la embaixo" pois foi quando a mão bondosa de dona Geraldina pousou docemente sobre meu ombro. Não sem guaguejar, tamanha foi minha surprêsa, ao vê-la de volta à sala toda delicada e interessada na minha eplicação balbulciei:

- Do-dona Gege-raldi.. e a classe caiu na gargalhada, virei eu motivo de riso. Que vergonha! Não devia ter ficado com raiva eu sei, mas só me restava mesmo terminar o que havia começado, e sem piedade dei uma dentada naquela mão berrugenta e lhe arranquei um dedo. A praga urrava de dor enquanto eu cuspia pela janela aquele dedo ossudo cheio de anéis.

O sangue espirrava nas minhas coleguinhas que boquiabertas não ousavam um pio. O diabo tentando me puxar para baixo, dona geraldina querendo ir procurar o maldito dedo, o vigilante querendo me levar pra diretoria, uma fome danada, era muita coisa pra aturar então gritei bem alto:

- Eu te mato velha mijona, vou arrancar sua pele e fazer tamborim! Arrancar suas tripas e fazer estilingue pra te dar pedrada nessa sua cabeçona careca Foi aí chamaram o padre pra me exorcizar mas ja era tarde, o padre veio e falou:

- Fudeu... e saiu correndo tão rapido que quando parou 10 minutos depois caiu morto de exaustão, a duas cidades de distancia. Era um padre rapido mesmo, tanto em suas declarações quanto na corrida. Enfim, sem cura para o mau, os moleques da classe começaram a cair pelo chão sofrendro de queimaduras na pele por causa de minha aura maligna que exalava gases venenosos, e foi aí que chifres enormes surgiram em minha cabecinha e fui ficando vermelha, depois roxa e uma cauda espinhenta começou a se desenvolver no fim da minha coluna. Minha boca aumentou que nem a gaveta de meias do meu pai e presas pontiagudas brotavam de minhas gengivas. Nem pestanejei e dei uma dentada na cabeça de dona geraldina e a engoli.

Os coleguinhas ali espalhados pelo chão soltavam fumaça e alguns ainda convulsionavam. Derrepente uma mão me chacoalhou e disse:

- Menina, você está bem? o que foi que vc tomou?!? Olhei em torno e vi que estava no quarto do meu irmão cabeludão qque ouve musica barulhenta. Não havia chifres nem coleguinhas espalhados pelo chão, so eu babando num canto e meu irmão com um saquinho de papel nas mãos.

- Vc comeu meus cogumelos mágicos sua moleca!!!

Meio estupidizada pelo gosto de cabo-de-guarda-chuva daqueles pequenos fungos comecei a cantarolar:

- Quem sabe eu ainda/ Sou uma garotinha/ Esperando o ônibus/ Da escola, sozinha/ Cansada com minhas/ Meias três quartos/ Rezando baixo/ Pelos cantos/ Por ser uma menina má...

Renato Ferreira, Rose Dayanne, Josy, Tina, Emilia, Sueli Aduan, Youkai e Cajadomatic
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domingo, 2 de maio de 2010

Curto um curto-circuito


9.321
De tanto pensar, queimou os transistores do cérebro, mas allás, não existem mais transistores e o miolo tem que ser trocado por um dignissimo circuito impresso feito com cabelinhos de ouro. Nada mais empolgante que acompanhar esta evolução e mais ainda fazer parte dela. Só não entendo porque cargas d'agua dizem que este NOVO que presenciamos nada mais é do que o velho reinventado. Mas como será isso? Provalmente os maias, incas já haviam participado deste circuito, ou ainda um curto circuito e sumiram. Mas nos deixaram muitos ensinamentos, como toda grande civilização que muitos acreditam enquanto outros não.
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9.322
Dona Quitéria, minha vizinha, diz que o homem, bicho danado, inventa muito. Deixou de ser humano,que quer ser Deus, que isso não é bão não e que ela até já ouviu falar também que nada é inventado, tudo já existe e é apenas descoberto. Como se descobrir estas coisas fosse fácil. Se fosse assim ela teria descoberto como cozinhar seus bolinhos de bacalhau sem deixar cheiro. Cruzes, so de lembrar franzo o senho. Mas é fato que os longinquos dominios de Zeus observam o pulular de nós serzinhos atarefados na labuta de inventos domésticos, domesticáveis e domesticadores. E não dão sequer um empurrãozinho para que façamos a coisa certa. Cria-se mais durantes as guerras do que em tempos de paz.
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9.323
O iPad ja existe e logo vai transformar-se numa placa de plastico transparente que carregamos na carteira. Mas ainda não inventaram o carro voador nem a capsula de energia, nem cachaça em drágeas ou aparelhos que permitam as girafas cantarem. Porem rumamos, como deveriamos rumar, a um viver e apertar. Apertar botões e botõezinhos, e, nessa velocidade estonteante, entre telas e fones, encontros e desencontros ficarmos mais livres para outras paragens. Criarmos o tempo desejável o tempo de... ... o tempo de... o tempo de um curto circuíto. Não vejo a hora de deixar de lado o carro, o metrô, o avião, pegar o meu teletransporte e ir de Bangladesh a Caracas em segundos. Trabalhar confortavelmente por algumas horas e depois vir tomar o chá da tarde em Curitiba, ou quem sabe até Paris. Um delicioso café, depois passear pelo Sena, visitar museus, correr pelos jardins sem avião, sem metrô. Teletransporte que nada. É melhor eu ajustar esses óculos, a viagem já começou.
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9.324
Sim o fim esta mesmo próximo, é o que dizem, parece que tem data precisa em 21 de dezembro de 2012, mas ja houveram tantas outras datas precisas para eventos tão heterogeneos quanto possivel sem que nada digno de nota acontecesse. Não que não va acontecer, so não se pode prever quando com absoluta precisão de um relógio paraguaio mas como dizem por aí, que vai rolar, vai. Acho.
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9.325
Curiosamente podemos ter nossos curto-circuitos e até curti-los. Eu curto meus circuitos e curto-circuitos na medida que eles possam fazer desprender do éter a volúpia necessária para embalar meus sonhos mais secretos.
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9.326
Mesmo contra a vontade da dona Quitéria de seus netos, sobrinhos amantes, fornecedores, advogados, alunos, malafetos, micróbios, e pensamentos o futuro é uma incógnita mesmo que predigam ao contrário consultores do Oráculo de Delfos, gente que lê as letrinhas na sopa ou grandes Xamãs espirituais da ordem de Hermes de Trimegistos. Acho até que é a unica coisa que Deus não sabe, o futuro.
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9.327
Segundo Einstein não existe o passar do tempo, ele é uma dimensão, não Einstein, o tempo, a quarta dimensão que possibilita a existencia da matéria no plano existente. Mas Einstein é menos fodão que Deus, se é que ele existe, não Einstein, Deus.
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9.328
Cartesianamente isso parece ser um paradoxo que segundo dona Quitéria, como é que Deus, que não pode prever o que vai pensar em seguida (se é que ele pensa e não tenha algum tipo de processo inimaginável que o leva a ter dúvidas sobre si mesmo) pode saber menos que um alemãozinho bigodudo que descrevia o universo com números e fórmulas para tentar entender a Deus?
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Neste momento o curto cicuito número 9.329 impõe uma quebra no padrão analitico e reinicia o sistema, isso promove o chamado: Pensar-através-dos-circuitos-não-abstratos.
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Mas acho que pensei além do que me era permitido.
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Cajadomatic, Renato Ferreira, Sueli Aduan, Léo Metallica, Emilia.
Ilustração
: Maria Emilia Zanin, (feito com de Post-its)
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quinta-feira, 29 de abril de 2010

Curto um circuito

De tanto pensar, queimou os transistores do cérebro mas allás, não existem mais transistores e o miolo tem que ser trocado por um dignissimo circuito impresso feito com cabelinhos de ouro. Nada mais empolgante que acompanhar esta evolução e mais ainda fazer parte dela. So não entendo porque cargas d'agua dizem que

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Uma questão de harmonia

Houve tempo — sim, houve —em que me fiz duro e ameacei que não voltaria mais. Voltei. Fui o primeiro a chegar, mas não para ficar. Estava decidido ir-me embora. Não trouxe nada comigo, exceto a rede com que pesquei durante os últimos trinta anos que vivi beira mar. Pela janela do trem ainda avistei os companheiros, o barco e as redes sendo atiradas ao mar. Uma tristeza invadiu meu coração, apertei os lábios firmemente, uma lágrima rolou, mas eu era um homem, e, meu pai dizia que homens não choram. Como ele pôde ter se enganado tanto.

Estendi as mãos, e aceitei tranqüilamente o lenço que as mãos enrugadas de seu Orestes me ofereciam. Era o pescador mais velho da vila. Não ia mais para o mar. Silencioso, falava pouquíssimo e passava horas todos os dias na venda do Amauri olhando para a brisa sua velha conhecida. Sem dizer palavra desceu do trem e se foi. Segui meu caminho com a idéia clara de que adaptar-se a essa nova vida não seria fácil. Escolhi não pensar. Pernas no mundo, olhos no vazio.

O balançar dos trilhos me acalentou com um ritmo macio e suave, que sem perceber fechei os olhos, e infinitas imagens desfocadas das lembranças de felicidade da vida que vivi surgiram. Por fim, perdendo o controle de minha consciência, dobrei-me sobre o resplandecente mundo dos sonhos. Lá estava eu, jovem novamente. Os cabelos ao vento, a pele queimada de sol e a esperança de uma pesca farta em mais um dia que se iniciava. A lua ainda nos observava, e as estrelas brilhavam em um azul que devagar ia se desbotando em cor de neblina, manhã e maresia.

Fumo Ruim, como sempre distraído desembaraçando as linhas enroscadas na caixa de reparos. Trocávamos poucas palavras. No mais dizer era um óia o pulo deste baita à sua frente, ou a última moqueca que Joana de Altério havia preparado na festa de São Sebastião. A felicidade dava gozo ao meu coração. Falar pra que? Nem carecia. Queria chegar em casa com fartura de peixes e beijos. Afagar mansamente a barriga prenha de Helga, minha gringa, amor.

Despertei derrepente num vagão já vazio parado na estação. Desci e me deparei com o espectro da metrópole e suas montanhas de prédios apinhados de gente, suas avenidas como dragões infinitos, e me dei conta que nem Helga, nem filho, e nem nada. Em fuga do que não aconteceu. Como eu era feliz em esperança. Meu Deus!Se não apressar o passo não alcanço o ritmo desta gente. Cato as traias o papel com endereço, um nome para me levar adiante. Estava numa fria. Nunca pensei que isso fosse aquilo. Aquilo que por um momento achei que era bem melhor pra mim. Que baita choque! Senti-me até tonto naquele formigueiro. Ter de começar uma nova vida a partir do zero me afligia um pouco. Dentro, uma intuição me guiava. No fundo sabia haver algo reservado para mim. Eis me aqui, pensei olhando o papel e o número de uma casa grande e amarela. Vamos lá! Aceitar tranquilamente o que estiver reservado pra mim.

Pressionei o botão da campainha e nada aconteceu. Com o coração apertado, as mãos geladas e uma leve sensação de abandono, me preparava pra ir embora. Quando derrepente a porta se abriu, e um senhor de cabelos longos e passos lentos surgiu. Abriu um largo sorriso e me disse: ─ Adamastor! Mas que surpresa! Ora veja só, você, aqui! Você chegou agora? Venha, venha, vamos entrando, a casa é sua! A viagem foi boa? Olhei-o profundamente, e ainda que envolvido por aquele doce sorriso, disse: ─ Olha, meu caro, não gosto de ser um estraga-prazeres, por outro lado, sou um sujeito muito direto: Adamastor e eu somos gêmeos. Não sabia de minha existência? Essa minha pergunta, feita assim à queima roupa, não impediu que ele continuasse a sorrir, e mesmo com um ar surpreso disse:
─Um bom momento para nos conhecermos. Foi então que a oportunidade surgiu. Senti que poderia contar sem constrangimento minha história para aquele sujeito cheio de sorrisos. Eu sou o Otavio, disse estendendo-lhe a mão lentamente por cima do pequeno portão que nos separava. Adamastor soube que estou em situação bem difícil e me mandou procurá-lo. Na verdade perdi tudo que tinha de valor: minha mulher e meu barco. O barco afundou e eu não consegui salvá-la.

O sorriso desapareceu do rosto do homem. Abriu-me o portão olhando para o chão e disse:
─ Então vamos entrar. Lá dentro você me conta tudo tomando uma boa xícara de café. A propósito, meu nome é: ─ Lucas disse eu intenrrompendo-o. Ele sorriu novamente e disse, não não não, meu nome é Julio, Lucas é meu irmão gêmeo. Fiquei sem saber se aquilo era gozação, mas ele continuou:
─ Como vê, meu jovem, temos mais em comum do que você imagina. Também perdi a mulher que amava, mas isso já faz muito tempo, hoje guardo-a aqui, e pos a mão sobre o coração.

O velhinho me pareceu simpático embora mal o conhecesse. Adentramos sua casa avarandada onde se viam samambaias e rododendros de um vermelho impressionante. Passamos pelo saguão colonial e fomos para um jardim onde havia um banco sob uma frondosa primavera branca. Sentamo-nos e ele me ofereceu um mate delicioso. Então ele me olhou nos olhos e disse:─Sabe Otávio, percebi que gostou das minhas plantas, sinto que temos muita coisa incomum mesmo. É raro vir gente na minha casa sou um gostador de silêncio dizia meu pai. E ele estava certo, à tardinha gosto de sentar aqui olhar cada plantinha, as folhas das árvores com suas tonalidades diferentes, sentir o cheiro da terra molhada e, às vezes, quebrar o silêncio tocando minha gaita. Dei um pulo do banco, para surpresa dele que assustado arregalou os olhos, e por pouco não derrubo a xícara com o mate. Todo o meu gostar poderia se resumir em: pescar e tocar gaita.
Ainda perplexo com tamanha coincidência, não pensei duas vezes, tirei do casaco minha gaita, e naquela tarde como em nenhuma outra o som foi infinitamente reconfortante, e naqueles momentos de música, eu e Júlio nada falamos, porque o som nos unia e nos fazia conhecer cada detalhe de nossas histórias trágicas, como uma ópera. Continuei tocando minha gaita, e talvez por estar envolvido demais, não percebi a aproximação de um alguém, que me interrompeu me tirando do devaneio com um leve raspar de garganta:
─ Então, até que enfim você chegou Otávio! Vejo que já conheceu meu irmão Júlio, e não, não se preocupe com maiores explicações, a carta de Adamastor explicando sua situação chegou há dois dias atrás!

Constrangido, mas tranqüilo percebi que estava entre amigos. E certamente, como pressenti desde o princípio, havia algo ali reservado para mim. Lucas se aproximou lentamente fitando-me nos olhos com uma agradável tranqüilidade no rosto. Apertou minha mão em silêncio. Sacou do cachimbo no bolso do paletó, acendeu-o ainda em silêncio, mas com a atitude de quem ia dizer algo importante. Tirou uma primeira baforada, limpou a garganta e começou sua fala:
─ É, no mínimo, espantosa a semelhança de nossas histórias. Nós três carregamos na alma a dor de perdas insuportáveis. Cada um com sua circunstância, mas os três com o seu coração irremediavelmente ferido pela morte de alguém muito, muito querido. Digo irremediavelmente porque embora tenhamos encontrado algum motivo para continuar neste mundo, sempre teremos esta ferida a nos doer de quando em quando. No meu caso, já faz tanto tempo, que creio ter me viciado nesta dor que a ausência de Lucia me traz. Acho que não conseguiria mais ficar sem ela. Faz parte de minha existência.
Em você é uma dor recente. Uma ferida aberta. Mas você me parece capaz de conviver com ela. Assim como Julio e eu o fazemos.

Num rompante de confiança disse: ─ Saí com Helga ainda de madrugada, interrompi Lucas. Na noite anterior não ouvimos rádio nem vimos televisão, nada! Dormimos cedo e bem juntos como sempre. Na madrugada acordamos e saímos ainda escuro. Não sabíamos que teve tornado no mar alto. Ao sairmos com o barco percebi o mar agitado, mas mesmo assim não pensei em possibilidade de desgraça. Quando a primeira grande onda nos atingiu o barco mudou de direção e a segunda grande onda nos pegou de lado e nos emborcou. Foi tudo em questão de poucos segundos. Caí naquela escuridão sem ter nenhuma idéia de onde Helga teria caído. A minha direita, a minha esquerda, na frente, atrás? A consciência da tragédia chegou tão rápida quanto o barco virou. Sabia que era o fim para ela. Desde que perdera nosso bebê, naquele maldito aborto ela nunca mais foi a mesma. Acho que quando caiu, entregou-se aquela morte. Eu mergulhei inúmeras vezes tentando encontra-la, mas nada. Flutuei por horas a fio nas águas daquela baía. Meus cabelos dançavam líquidos e se embaraçavam com os dela, sem vida no fundo daquele mar profundo e azul. E seu corpo descia lentamente para um infinito de onde jamais retornaria, de minhas lágrimas fazia parte todo o oceano.

Mas estava ficando tarde e percebi que estava ainda ali olhando aqueles dois velhinhos me olharem com condescendência. Lucas pos a mão em meu ombro e disse: ─ Está com muita raiva de Deus? Desconcertei-me. Ele adivinhou meu pensamento. Sim-sim! Você adivinhou! Só não sabe o quanto o odeio! Respondi com voz meio rouca, meio fraca, estrangulada pelo quase choro que me veio. Engoli em seco o amargor da boca e pisquei seguidamente os olhos afastando o ardor das lágrimas que abortei.

─ Isto também vai passar me disse. Sem que você perceba, vai perdoá-Lo. Vai perceber que grande parte da humanidade sofre a perda de entes muito queridos. Você não é o único. A morte é necessária de alguma maneira que nós ainda não compreendemos, ou nos recusamos a compreender. Deus não mata. Acho que nos muda de lugar ou de forma, não sei bem. ─ Você vai acabar perdoando a Deus. Eu, um dia, aceitei tranquilamente o que ele me reservou.

Júlio, até então quieto, rompeu seu silêncio para completar tão bela fala. Acredito que perceberá ainda mais: ─ o que ele reservou é sempre o melhor, nós é que não enxergamos. E, naquela tarde ao som da gaita embriagados pela palavra divina, a idéia surgiu assim misteriosamente, feito um pássaro com seu belo canto. Descobrimos-nos músicos, era só uma questão de harmonia.

E Júlio ainda com um sorriso tranqüilo e sereno cantou ─ “Como pode um peixe vivo viver fora... Como poderei viver?” E animado bateu palmas que ecoaram como um brinde a vida.

Renato Ferreira, Youkai, Ermitão, Cristinasiqueira, Cajadomatic, Josy, Emilia, sueliaduan.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Aceitei tranqüilamente


Houve tempo — sim, houve —em que me fiz duro e ameacei que não voltaria mais. Voltei. Fui o primeiro a chegar, mas não para ficar. Estava decidido ir-me embora. Não trouxe nada comigo, exceto a rede com que pesquei durante os últimos trinta anos que vivi beira mar. Pela janela do trem ainda avistei os companheiros, o barco e as redes sendo atiradas ao mar. Uma tristeza invadiu meu coração, apertei os lábios firmemente, uma lágrima rolou, mas eu era um homem, e, meu pai dizia que homens não choram. Como ele pôde ter se enganado tanto. Estendi as mãos, e aceitei tranqüilamente

terça-feira, 13 de abril de 2010

Feito um rei.


Havia 46 macacos naquela árvore, mas somente um foi capaz pular para a arvore mais perto. Não era uma bananeira, mas uma jabuticabeira carregada. Ele olhou pro resto da macacada faminta sem entender porque eles não pulavam também praquele paraíso de jabuticaba.
Foi aí que ele viu

Muitas outras árvores semelhantes a essa. Macaco inteligente, não teve dúvidas: — era mesmo o paraíso. A bananeira uma sombra, apenas. Mas para pular não bastavam somente agilidade e fome. Era preciso sagacidade! Ele, macaco experiente que era, observou que seu instinto sempre falava mais alto, e que sim, tinha realmente escolhido a melhor árvore!

Olhou ao redor e viu que seus companheiros também começavam a saltar aqui e acolá, no entanto seu instinto de autopreservação o fazia olhar o todo em redor, entre as muitas folhas e galhos, os olhos rápidos erravam daqui pra ali a procurar algo que pudesse merecer um sinal de alerta para o resto do bando.

De galho em galho empoleirou-se no último. Feito um rei. O rei das jabuticabas. Dali seu olhar esperto percebia todo o movimento da macacada. Um verdadeiro banquete aquelas neguinhas brilhantes e cheirosas presas nos galhos. Desconfiado da fartura aguçou o faro, mordeu uma fruta, engoliu outra e cuspiu uma terceira. De olho na bananeira não muito longe dali, imaginou-se o rei da banana também, logo após ter terminado com as jabuticabas, certamente.

Foi quando reparou que as onças em baixo haviam ido procurar outro almoço que não macaco ao sugo e pensou: — é uma boa hora para pular a bananeira. Mas quis o destino que os outros macacos tivessem a mesma idéia, e em um tumulto indescritível, migraram para a bananeira em frações de segundos. O macaco muito puto da vida pensou então: — ou eles ou eu. E num impulso lançou-se em direção a bananeira como um raio, disposto a disputar o seu naco de bananas com a macacada em alvoroço. Foi uma gritaria danada. Uns pulavam em direção dos cachos de banana mais baixos e ficavam ali pendurados para grande desespero de nosso herói.

Com dor no coração o macaco resolveu voltar para suas jabuticabas. Preferia ser o rei das jabuticabas do que o plebeu das bananas. Então viu que as onças haviam voltado e a bananeira era baixa, não tinha o monte de galhos que provia proteção como à jabuticabeira. Com um enorme dó ele ficou ali vendo seus colegas serem puxados para as presas das onças. Não havia nada que pudesse fazer a não ser atirar jabuticabas nos olhos das onças. Elas não estavam gostando muito disso e rugiam enfezadas para ele. Derrepente, de cima da montanha surgiu imponente seu velho amigo King, King Kong o maior macaco do pedaço. As onças arregalaram os olhos ao verem tamanho macacão. E ele disse:

—Calma macacada vou dar um jeito nos gatinhos, e foi aquela confusão : — as onças correram,os macacos gritavam ainda mais numa mistura de alívio e alegria.

Derrepente o silêncio tomou conta de tudo. Do fundo da mata surgia o som melódico do azulão e o sol como testemunha. O olhar do nosso herói pousou lentamente sobre a copa das árvores. De onde estava podia avistar um horizonte longínquo, o céu azul com nuvens brancas, as folhas brilhando ao sol e o silêncio relativo de uma breve paz.

Josy, Renato Ferreira, cristinasiqueira, Cajad0matic, sueliaduan.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Estado de fauna

Haviam 46 macacos naquela arvore mas somente um foi capaz pular para a arvore mais perto. Não era uma bananeira mas uma jaboticabeira carregada. Ele olhou pro resto da macacada faminta sem entender porque eles não pulavam tambem praquele paraiso de jaboticabas.
Foi aí que ele viu

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Somos feitos assim


Paf!
Mamãe me deu um sopapo, bem que eu mereci. Claro que fiquei com raiva, um tapão na nuca nunca é bem vindo. Mas a culpa não foi bem minha. Nao quebrei o braço do João, juro, ele se quebrou sozinho, já disse que nao faço essas coisas poxa, porque não acredita em mim? Sei que as pessoas a meu redor sempre se machucam misteriosamente, menos na minha familia, talvez sejam imunes a mim, nao sei por que, afinal nao sou esse tipo de pessoa.

Lembrei-me do episódio poucos anos mais tarde no ônibus que me levava de Vila Mariana a Penha. Lento e monótono o ar viciado por tanta gente respirando ali, o silêncio de tédio me deixavam de saco cheio. Eu vinha sentado na janela com um estranho ao meu lado. Não bastando o calor e o abafamento o sujeito, meio grande, meio gordo, dormia e esparramava-se no banco contribuindo para meu desconforto.

Foi quando num gesto brusco, para melhor me acomodar, esbarrei em seu braço. O sujeito acordou. Olhamo-nos rapidamente, uma fração de segundos e foi o que bastou. Sorrindo me disse:
- Mas não é possível, não pode ser... Estou te reconhecendo! Você não é...? Você era vizinho da tia Alice, na rua Mandu..., não era? Meio aturdido com a pergunta, ainda entediado e sem nenhum entusiasmo, respondi:
- Sim, morava ao lado dela. Mas, não estou conseguindo me lembrar...
- Sou o Laércio, interrompeu-me. Filho da Jandira que morava na mesma vilinha de casas, lá na Mandú, lembra?
- Ah, agora estou me lembrando! Você e eu costumávamos brincar lá na rua, não é?
- Nossa! Faz muito tempo. Não voltei mais lá desde que mudamos.
- Mas, como vai a vida?
- A vida?! Ah! A vida.É meio complicado... Não é no momento do jeito que eu gostaria, mas dá pra ser feliz de vez em quando. Quando meu time ganha, quando entra um dinheiro a mais, disse brincando.
- Mas, olhei para ele com mais atenção, você está muito diferente... esta barba, os cabelos longos... como me reconheceu? Tenho a mesma cara que tinha quando criança?
- É teu olho. Ele olha do mesmo jeito de quando eramos guris descabelados apertando campainhas e correndo pela vila.
- Bom vc não da pra perder com esse cabelo vermelho que deixava as velhotas da rua em desespero, hahaha, fomos mesmo moleques imperdoáveis hein?
- Acho que fomos mesmo, mas a vida se vinga, tenho dois filhos que me deixam de cabelo em pé
- Não brinca, tenho dois moleques tambem, mas são bem tranquilos um pensa que é o papagaio do platão e o outro a vitrola do Juca Kifuri.
- Uau, um filósofo e um esportista...
- Nada, dois tagarelas, mas tranquilos, acho até que nós fomos bem piores, disse Laercio.
- Não sei com respeito a teus filhos. Mas quanto aos meus, com certeza, eu fui bem pior. Sumia para ir nadar no lago azul e só aparecia a noite.
- Lembro bem disso, disse Laercio, uma vez você tomou várias chineladas nas pernas. Tua mãe estava possessa.
- Coitada, respondi, é que de vez em quando morria algum garoto afogado por lá... dona Gloria tremia de medo.

De repente voltei à minha própria infância, ouvindo (sem querer, juro!) o encontro casual desses dois homens feitos, com suas reviravoltas de vida, alguns sonhos de criança concretizados, muitos outros não e ali, na minha frente, como num filme, revivi a promessa feita e o sonho que não se realizou, pelo menos não para mim.

Será que ele se realizará ou será deixado de lado aos poucos substituido por outro sonho? Com o passar dos anos não temos mais sonhos.

Só desejos.

Uma obra escrita por Sergio Cajado, Youkai, Sueli Aduan, Renato Ferreira, Tina & Nalucky

terça-feira, 6 de abril de 2010

Porque eu sou assim?

Paf!
Mamãe me deu um sopapo, bem que eu mereci. Claro que fiquei com raiva, um tapão na nuca nunca é bem vindo. Mas a culpa não foi bem minha.

terça-feira, 30 de março de 2010

Jaime Córdoba: " Em busca do som e do silêncio”



“Isolados experimentalmente de todo ruído externo,
escutamos no mínimo o som grave da nossa pulsação
sanguínea e o agudo do nosso sistema nervoso”.
John Cage

Era um sujeito de poucas palavras, desses que vez ou outra aparecem por aqui e só nos cabe o silêncio um impecável atendimento. Não posso dizer que não ficava intrigada toda vez que o via descendo as Era um sujeito de poucas palavras, desses que vez ou outra aparecem por aqui e só nos cabe escadas. Arrastava um pouco a perna o que aumentava a áurea de mistério que envolvia sua vida, além da minha própria desconfiança. E, a bem da verdade, a desconfiança não era só minha, não. De hábitos estranhos saía de manhãzinha levando uma pequena maleta preta e só retornava a noite. Exatamente no momento em que nosso hóspede chegava eu sempre me encontrava sozinha na portaria.
Foi quando numa dessas noites e com um céu estranhamente estrelado, a lua indo alto, que percebi: — não voltou com a maleta, mas ele também percebeu o meu espanto.

Veio em minha direção e disse num só fôlego:
- Bondosa senhora, perdoe minha entrada assim sem o apresentar-se natural de pessoas que hão de se conhecer, mas não o fazem por timidez ou falta de tempo. Noto seu espanto ao ver-me chegar sem minha maleta que parece ser parte de minha identidade. Desta maneira gostaria de aproveitar a ocasião e me apresentar, Jaime Córdoba a seu inteiro dispor.
Baqueada pelo inesperado colóquio balbuciei meu nome meio sem entender.
- Ola, sou a Sueli.
- Dona Sueli, desculpe o mau jeito, essa abrupta introdução de minha pessoa nos recônditos de seus pensamentos, é um prazer conhece-la. Gostaria que pudesse lhe confessar que há muito havia notado sua presença indagativa que imagino ter a ver com minha maleta, um tanto surrada, mas de inestimável utilidade para minha profissão, mas o fato é que perdi a tal maleta e gostaria de saber se a senhora não a teria visto.

Diante tanta polidez reconheci meu falso julgamento a respeito do pobre homem que me parecia correto e honesto apesar de coxo e soturno.
- Não vi, disse eu, talvez o senhor tenha deixado em seu trabalho, seria possível?
- Não, não seria, disse ele, meu trabalho não permite que tenha um lugar fixo.

Já me mordendo de curiosidade, quase pergunto que trabalho era esse, mas ele se adiantou.
- Sabe, sou técnico de som, e trabalho para uma companhia de cinema. Busco sons para posterior sonoplastia e dentro da maleta está uma Nagra de 40.000 dólares que uso para coletar sons deste mundo.
- Entendo sua preocupação, disse eu, especialmente hoje numa noite em que as estrelas estão tão lindas que parecem sussurrar uma canção.

Ele deu um passo para trás e disse:
- Em noites assim, por incrível que pareça, paira um imenso silêncio, nas ruas, nas cidades, no mundo. Como se as estrelas cantassem uma bela canção aos nossos ouvidos insensíveis. Mas como apurar os ouvidos e observar é característica de meu trabalho, aprendi que há sempre som dentro do silêncio, e, é uma pena mesmo a maleta ter desaparecido. Poderíamos caminhar por estas alamedas desertas, e quem sabe, a senhora ficasse perplexa com os sons que vem da noite, da lua e das estrelas.
- Conheço os sons das estrelas, elas sempre cantam sua canção para mim, Sr.Jaime
- Tens admirável bom senso minha senhora, quisera ter uma audição assim tão perceptiva.
- Mas não é fácil meu senhor, isso exige de nós um tempo do ouvir. Imagino, por conta do seu próprio trabalho, que sabe o quanto valorizamos a imagem. E, assim nem nos damos conta da necessidade do silêncio para poder ouvir. Ouvir tanto a si quanto os sussurros dos ventos, onde caminham as vozes das pessoas queridas, a alegrar o espaço amplo de nossos corações.

-Minha senhora, que senso tem para o som até mesmo o emitido pelo corpo em movimento de vida das pessoas ao seu redor! Qual sua profissão? Tem certeza que não esta na área errada poderia de ser melhor do que a mim em minha empreitada pelos ecos desse mundo.
Desculpe-me, senhor, estava tão concentrada na procura de um objeto valiosíssimo de um outro hóspede, que nem escutei o seu nome. Com vê, meus ouvidos não são tão apurados assim, ou melhor, são, mas não para todas as coisas. E até hoje não compreendi muito bem isso, penso que é coisa de família. Meu avô tinha um excelente ouvido para a música. Era marceneiro de mão cheia, aliás, dizia que o serrote na madeira emitia verdadeiros acordes. Com ele aprendi que, às vezes, uma coisa não tem nada a ver com a outra, que nem sempre a imagem diz o que lemos, e essas coisinhas aparentemente banais, mas que carregam um grande significado.

Mas agora era Jaime quem não ouvia mais. Não lhe fora fácil se apresentar, dizer seu nome. Dizer seu nome a quem? Ao vento?
Sueli estava perdida em seus pensamentos e na procura do objeto precioso, a Nagra do Sr. Jaime, que sequer ouviu o novo hóspede apresentar-se.

As estrelas ainda brilhavam num céu estranho, a lua ainda mais no alto, mas dentro, no coração de Jaime, ainda havia uma preocupação maior que não permitia que se entregasse a essa nova pessoa, tão exótica quanto ele. E não conseguia esconder a aflição de ter perdido seu instrumento de trabalho e suas mãos mostravam, pelo tremor insistente, seu nervosismo; o que fez com que Sueli se desligasse por um momento dos seus afazeres e, lendo a face do hóspede, perguntou:
-O que é mesmo que disse levar na maleta?
-Um Nagra, é um gravador poderosíssimo que capta com qualidade sons quase imperceptíveis ao ouvido humano.
-Puxa, que interessante, e você nunca pensou em usá-lo para fazer escutas, de conversas alheias e que poderiam ser interessantes de se ouvir em certos momentos de solidão?
-Na verdade, já fiz isso uma vez, mas não tenho esse costume, só uso com pessoas que me despertam o interesse. Uma vez, por descuido, acabei gravando uma conversa sua e, por acaso, ouvi que comentava sobre mim. Que eu era reservado, calado e, se não me falha a memória, intimidador. Gostaria de desfazer essa impressão. A gente poderia um dia desses tomar alguma coisa.
-Estou muito ocupada, além disso, sou casada e tenho uma criança.
-Não! Tem certeza disso? Estou quase certo de que ouvi o contrário. - Talvez seu Nagra
tenha ficado com defeito.
- Pouco provável. Mas eu estava pensando num sorvete. A senhora não gosta de sorvetes?
Adoro Sr.Jaime, ótima idéia. E quem sabe, ao sabor de um delicioso sorvete, eu possa desfazer esse equívoco, já que a probabilidade de seu Nagra ter dado defeito é inexistente.
-Vai rir muito com o que vou revelar. Não se espante não, não chega a ser demência. Mas é muito bom vê-lo sorrir. A verdade, é que tenho uma imensa paixão por livros. E leio alguns trechos em voz alta. O que gravou foi uma desses maravilhosos momentos. Talvez insanos. É uma maneira que encontrei de pertencimento à obra. No silêncio do meu quarto, ouvindo minha própria voz é como se a dor, a alegria, a descoberta dos personagens fossem meus. Outras vezes, fico em silêncio tentando enxergar o personagem: — seu rosto, seus olhos, sua boca. Aprendi com meu avô a importância de ouvir o silêncio para se criar a imagem perfeita.
Mas eu fico aqui, falando quando deveria estar ouvindo. Penso que tem muito a ensinar Sr.Jaime Cor... Desculpe-me não quero ser indelicada, mas tive uma leve sensação de que quando se apresentou disse mais um outro nome. Cajado seria ou me enganei...?

- Córdoba minha cara, a seu dispor. Curioso, conheci um Cajado há algum tempo, era um sujeito taciturno, meio coxo, dava a impressão de estar sempre tentando entender coisas que não lhe eram permitidas entender, não sei que lhe sucedeu, gostava dele, era uma dessas pessoas que a gente nunca esquece, mas que parece esquecer da gente.
- Tem muita gente assim senhor Córdoba.
- Jaime
-Sim, Jaime, por favor, não me chame de senhora, parece que esta falando com minha avó
- Com prazer Sueli, veja, somos seis bilhões de habitantes no planeta agora, muitas pessoas desaparecem neste turbilhão de gente
- Entendo, também conheci um Cajado, não sei se era coxo, mas era um bom pen pal, um amigo de internet que afinava bem com minhas idéias. Ainda somos amigos, vou perguntar a ele se ha algum coxo em sua família.
-Pois e, com tantas pessoas nesse mundo será possível que conhecemos o mesmo Cajado, Jaime? Estou tentada a crer que sim. Muita coincidência, pois esse meu amigo também tem essa característica, tão rara nos dias de hoje: — o de espantar-se com as coisas, de querer entendê-las. E apesar de conhecê-lo muito pouco, o fato de nossas idéias se afinarem, me dá essa tranqüilidade em falar dele a você. Seria ótimo não, se fosse o mesmo e, ainda, de quebra gostasse de sorvete. Sairíamos os três pelas alamedas, em busca de sorveterias.
Falaríamos da vida, do acaso, do som, do silêncio, da imagem, da amizade, do querer, e em ser quem se é. E pode ser que você ache o seu Nagra! Aí tudo passaria a não ser coincidência.
- Sim, vamos torcer que isso aconteça. Mas deixa esses Cajados pra lá. Vamos tomar nosso sorvete.
- Claro! Vamos lá.

E assim fomos pela alameda sob a luz das estrelas rumo ao sorvete de flocos.

Sergio Cajado, Youkai, Paulo Marcello, Tem um Cabelo na Minha Sopa, Sueli Aduan