quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Uma Tarde Ordinária.

 Seria imensamente gratificante ver todo mundo reunido. Seria ainda mais gratificante se estivesse vendo todo mundo reunido por um telescópio. Metade não se via ha quase vinte anos. Menos cabelos mais rugas mas os olhos não envelhecem jamais.

A porta abriu. Entra um homem. Senta-se e fica olhando para o canto do teto. Cada vez que a porta abria dava pra ouvir o carnaval na rua. Mas ai ela fechava e voltava o ar mudo, o silencio tumular.

Atras da parede de madeira alguem puxou uma descarga, uma porta rangeu. Alguns passos pelo corredor de madeira terminaram numa batida de porta, lenta e pesada. Entreolham-se os olhares. Espera. Tosse. Sorriso. Silencio. Mas ai todos se viram para uma mulher que se levanta e diz:

- O que devo fazer? Vocês não me disseram que viria mais alguém. Mais uma vez todos se entreolham, constrangidos. Nenhuma resposta. Mais uma batida na porta e a mulher, sem paciência, se encaminha para finalmente abri-la e ver quem está do outro lado. Alguém abre a boca e arregala os olhos. Outro lhe faz sinal para que se cale e um terceiro, bem mais velho que os demais, com seu olhar experiente e algo sutilmente cínico, levanta a mão e diz:

 - Esse filho da puta vai meter a gente numa grande enrascada. Cochicho geral. Silencio, sussurrou ele um pouco alto, temos que dar um jeito de tira-lo daqui. Com um gesto de calem a boca abriu a porta e com um sorriso saudou o visitante.
 - Padre, que bom ve-lo aqui! O padre olhou-o de cima abixo, fez uma carranca e foi sentar-se ao lado do homem que olhava para o teto. Com a mão no seu ombro ele o conforta:
 - Meu filho, sei que é um momento duro mas o que vou lhe dizer não pode ser evitado. Você é o escolhido. Alisa o ombro do homem uma ultima vez e firma a mão sobre a cruz pendente de seu peito.
 - Não vou fazer. Protesta o homem ainda olhando pro teto. A mulher da porta se aproxima e o velho solta uma gargalhada alta. Silencio e introspecção se segue. O padre toma a iniciativa.
- Você precisa. Saca do bolso o aparelho eletrônico estende ao homem que finge não perceber. Alguém bate a porta novamente e todos congelam em seus lugares. - Quem é agora? Deixa escapar uma voz amedrontada.
- Oh meu Deus, o que serâ de nós, diz uma velhinha que até então ficara num canto sem dizer uma palavra.
- Não se preocupe vovó, diz a jovem ao seu lado, tudo acabará bem.
- Vai depender do que vc considera terminar bem minha jovem, intrometeu-se um cavalheiro baixo com vastos bigodes.
- Cale-se Antenor, disse a velhinha, isso aqui é mais sério do que vc pode imaginar nesta sua cabeça cheia de minhocas.
- Talvez disse Antenor, mas não se pode absolutamente prever o que será dito.

A porta se abre e dois policiais adentram o recinto carregando uma caixa de papelão quadrada, do tamanho de um litro de leite. Colocam a caixa sobre a mesa e dão um passo para tras. O mais jovem dos policiais, então pergunta:
- Quem de vocês pode nos explicar o que significa isso?
- Isso o que? Pergunta a loira sexi enrolando uma mexa dos longos cabelos no dedo enquanto esticava os olhos para ver o conteúdo da misteriosa caixa.
- Ora - ora! Vejo que os senhores abriram uma coisa que não lhes pertencia... - disse o cavalheiro dos vastos bigodes.
- Bem - o policial mais velho olhou para os lados constrangido - não havia nenhum destinatário ou remetente, mas abrindo a caixa encontramos este endereço.
- Acho que agora não falta mais ninguém, não é Antenor? - disse a velhinha, sua mãe.
E como vou saber? - respodeu Antenor visivelmente mal humorado, provocando um surto de risinhos dissimulados nos presentes.
- Esta na hora! - disse o padre enxugando rapidamente uma lágrima teimosa.
- Eu não vou fazer!!!! Escolham outro! - gritou o pobre escolhido.
- É preciso! - disseram em uníssono os três homens que se sentavam sob a janela.
- Ah faz sim, amorzinho... Você vai conseguir! - disse a loira fazendo um biquinho.

Depois de pensar por alguns instante, o homem levantou-se com o aparelho cuidadosamente instalado na concha formada por suas mãos e encaminhou-se até a mesa. Com a respiração suspensa, todos os presentes fixavam o olhar para as mãos do pobre rapaz sobre a mesa, quando alguem gritou
- Espere! Deixa que eu faço. Levantou-se um dos homens sobre a janela com um sorriso suspeito sobre os lábios.
- Não senhor, você não pode. Interpôs-se o padre com um tom grosseiro mais sem intenção de o ser.
- Deixe o escolhido fazer o que tem que fazer. Apoiou-a velhinha. -diga alguma coisa Antenor!
Antenor não disse nada.
- O que esta acontecendo aqui? o policial questionou-os
- Logo descobrirá. Afirmou o homem de vastos bigodes.

Sem que mais qualquer um pudesse interrompê-lo com palavras ou ações o homem escolhido colocou a mão dentro da caixa de onde tirou um fone de ouvido, plugou-o ao aparelho que segurava na outra mão e em seguida voltou a apalpar o interior da encomenda, porem seu pulso agora fora detido firmemente por um dos policiais de expressão tensa.
- Nem pense nisso. Sussurrou.

Num gesto inesperado e tremendo dos pés à cabeça, o pobre rapaz joga o aparelho dentro da caixa de papelão sobre a mesa. O silêncio no ambiente só é interrompido segundos depois por uma pequena explosão e intenso brilho que preenchem todo o espaço. Boquiabertos os presentes assistem ao nascimento de pequeninas estrelas ,que numa espécie de dança cósmica flutuam pela sala.

Sorrindo o policial diz:
- Puxa! Se eu soubesse que era i s s o ! - disse enfatizando o "isso". O policial mais velho coça a barba e, num gesto um tanto brusco, afasta o homem dos vastos bigodes para chegar perto da caixa.
- Espere! Você não pode... - começou a loira.
- Ah! Posso sim! - responde antes que ela continue.
- Não mesmo! Eu é que vou! - gritou a velhinha.
- Parem! - grita o escolhido e todos se tornam imóveis. Apenas os olhos perplexos se movem de um lado para o outro, como a procurar socorro.
   
Calmamente e sorrindo, o jovem toma o aparelho e o lança à caixa. Então, olha de um para o outro dos presentes e, sem tremer, estufa o peito com satisfação e proclama:

- Voces podem se coçar de inveja, podem ficar com urticarias e manchas vermelhas na barriga mas quem inventou as regras de amigo secreto não fui eu portanto esse iPhone agora é meu!

Suzana Palanti, Youkai, Sueli Aduan e Sergio Cajado

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