quarta-feira, 12 de maio de 2010

Pequenos atos


Todos os raciocínios do homem não valem
um único sentimento da mulher
Voltaire

- Quem sabe eu ainda/ Sou uma garotinha/ Esperando o ônibus/ Da escola, sozinha/ Cansada com minhas/ Meias três quartos/ Rezando baixo/ Pelos cantos/ Por ser uma menina má... Cantarolando minha musica predileta entrei na sala, mas me calei imediatamente, amedrontada. Os olhos de Dna Geraldina, cravados em mim, diziam: Senta.
Foi uma eternidade da porta até a carteira que me esperava fria e monstruosamente educada, cheiro de peroba, madeira escura, mas bela e instruída, essa carteira.

- Olha a postura, me disse calma e seriamente. Endireite este tronco, ou vai ter problemas com a tua coluna. Endireitei-me. Ela virou-se de costas para mim, deu uns dois ou três passos em direção a janela e olhando para a quadra de esportes que limpa e convidativa nos aguardava naquela bela manha. Dona Geraldina, velha astuta, percebeu o nosso entusiamo, a nossa energia,afoitos que estavámos para o jogo, para o brincar. E, com um falso sorriso entre os lábios dissimulava seus verdadeiros planos.

- Hoje, excepcionalmente, ficaremos aqui na sala para ensaiarmos uma canção que apresentarmos em razão do aniversário de 50 anos de nosso colégio que será na próxima semana. Iremos cantar Carinhoso, de Pixinguinha.Você foi escolhida para fazer a voz principal como no ano passado. Só então voltou a olhar no meu rosto. Percebi no dela um certo prazer que já conhecia e que sabia que sentia ao poder me impor sua vontade.Trazia no olhar altivo uma satisfação um tanto sádica que ela disfarçava com fingida indiferença. Eu a conhecia bem e sabia que estava jogando, apenas para seu deleite. Decidi, então, participar do seu jogo, e diferentemente do ano anterior não demonstrei minha insatisfação. Ao contrário,fingindo imensa alegria, disse-lhe;

- Adoraria cantar. respondi e abri um largo sorriso. Uma ruga vergou na testa de Dona geraldina. Continuei entao com o jogo satisfeita.
- Quando começamos o ensaio?

A turma me esperava para começar o primeiro ensaio. A maoria tinha um sorrisinho maroto nos lábios. Sabiam que algo iria acontecer. Dna. Geraldina tentava disfarçar sua ira, mas dava para sentir sua irritação. Pronto, já estávamos todos em posição de coral, bocas fechadas, aguardando um comando, e eu enorme, gigante, como uma águia, pronta para voar por cima da enorme majestade e mestra com a minha voz !

Não que eu realmente cante bem, se me lembro bem do ano passado, fiz um esforço discomunal para conseguir aquela proeza, fazendo Dona Geraldina engolir a própria arrogância, ao perceber que sua neta teria sido preterida a mim! Agora penso que mais uma vez tenho a oportunidade de provar o meu valor, que devo me esforçar, dar o máximo, e cantar de um jeito que Dna Geraldina..., mas derrepente me dei conta do absurdo da situação. Provar o quê e para quem? Não, essa não era eu. Esse jogo tinha ido longe demais. Hoje percebo fui vítima de bullying, por assim dizer, a bully, a valentona era Dona Geraldina. Às vezes eu passava horas arquitetando uma forma de irritá-la, podia ser sobre o cabelo com aquele corte rídiculo, ou ainda as roupas que mais lembravam uma amarração de linguiças, muitas ondulações e apertos, nossa, como ela conseguia respirar! Coitada! Dna Geraldina viveu uma vida muito complica mesmo. É o que falam pelos corredores da escola. Sempre tendo que dar satisfações de seus atos. Na juventude aos pais, depois casou-se e sofreu mais ainda. Respirar acho que ela não respira faz tempo.


Foi então, que resolvi tomar as rédeas, como sempre fizera, e ser eu mesma para varrer de vez o cinismo daquela criatura crassa que me vilipendiava ha tres anos. Enfiei o dedo no nariz e tirei uma meleca balouçante que grudou nos outros dedos. Olhei para ela e seu olhar fusilanime atravessou minha indiferença como se ninguem estivesse ali. Ela ia dizer alguma coisa mas eu me adiantei.
- Desculpe o mal jeito, mas eu não tava conseguindo respirar...
- ha maneiras mais educadas de se limpar o nariz, disse ela.
- A senhora tem razão, mas no momento esta foi a unica maneira que me ocorreu
- O que vc vai fazer agora com esta maravilha pendurada no seu dedo?
- tava pensando em comer, ja que saiu de mim mesma, e depois li numa revista que as cacas ajudam a desenvolver mecanismos de defesa contra gripes professora.
- Isso é muito nojento, va ao banheiro e lave suas mãos
- Sim senhora, disse eu sem perder a satisfação de ter vencido esta parte de minha guerrinha pessoal. Com uma repentina rouquidão na voz, disse-me:
- Agora que já fez a tua gracinha e livrou-se daquela nojeira, vamos começar.
- Sim senhora, retruquei, subitamente amável.
- Lenira, distribua estas folhas para a classe, disse a megera.
- Atenção, todas! Façam silêncio. Na primeira parte a Emilia vai cantar sozinha.E quando eu fizer este sinal - movimentou um braço como uma maestrina - vocês cantam a segunda parte junto com ela. Todas entenderam? Ninguem respondeu mas todas balançaram as cabeças afirmativamente. Ainda não terminou de distribuir, Lenira? Vamos rápido com isso. Todas conhecem a música, não é? Se alguem não souber vai aprender agora. Atenção Emília comece ao meu sinal.

- Um, dois, três...
- Meu coração, não sei porque. Bate feliz, quando te vê. E os meus olhos..... Cantei direitinho a música, aliás, manjadíssima em festas do gênero. As meninas entraram na segunda parte, ao sinal da megera, e tudo correu bem, até o final, lógico com uma desafinação aqui, outra ali, por parte do restante da turma. Eu cantei minha parte sem grande brilho, mas afinadinha. Ao final, Dna Geraldina disse:

- Temos muito o que melhorar e blá, blá, blá mais dez minutos. Cantamos a musica inteira mais umas três ou quatro vezes e a "querida mestra" ia fazendo observações aqui e ali, comigo e com outras alunas, etc...
- Agora vamos cantar a última vez, por hoje. Caprichem.
- Meu coração, não sei porque... Bate feliz, quando te vêeee. Desafinei um tanto exageradamente.
A classe caiu na risada.
- Silêncio! gritou a megera. Que foi isso, Emília? Mais uma gracinha? Outra dessa e você vai para a Diretoria.
- Não professora, não sei o que houve. Minha voz falhou..., eu disse com a maior inocência. E assim foi em três dias de ensaio: Quando ela menos esperava, minha voz, "falhava" e a classe caia na gargalhada.

Ela me mandava para a diretoria e a cada ensaio Dna Geraldina irritava-se mais, mesmo porque muito pouco a diretora podia,ou queria fazer. Tanto Dna geraldina, quanto eu, sabíamos que a minha atitude não era das melhores. A gracinha com a voz não era o pior, mas o incidente do dedo no nariz e a minha fala a respeito a pertubaram muito. E, ela não se conteve. Na primeira oportunidade me disse:- Fique a senhor sabendo que para meus resfriados prefiro vitamina C, e sarcástica concluíu: não se trata de ser moderna ou não. Questaõ de escolha, além é, claro, da beleza em enxegar aquelas bolinhas coloridas na água. Efervescência! Silêncio. E a palavra ecoou pela sala. Nesse momento, os olhos de Dna Geraldina encheram-se de lágrimas. Ela enfim percebeu. Então, era isso, uma questão de efervescência e e alegria, ela totalmente confortável nas vestes de um carneirinho anis ! sim aquele azul assim meio roxo fora de sintonia.

Um dia decidi que não iria mais provocá-la mas pensei que mesmo minha intenções sendo as melhores, ela nem perceberia. Seria ela tão frívola? Afinal ela também, assim como os brutos, deve amar. E mesmo não a provocando, não podia me furtar ao prazer intenso, nem resistir a tentação de expo-la mais uma vez ao ridiculo. Sabia que pagaria porisso, mas valeria cada segundo no purgatório.

Imaginei então um plano sardonico destinado não a humilha-la mas a faze-la motivo de riso e de chacota por onde quer que fosse.

Comprei uma dentadura usada que encontrei numa dessas lojas que vendem porcarias usadas e puz num copo com agua em cima da minha carteira. Quando ela viu a dentadura ali franziu a boca como se tivesse chupado um limão. A classe veio abaixo, todos cairam na gargalhada, pareceu que ela queria se certificar que não era a dela que estava no copo. Com a algazarra criada ela percebeu o golpe e saiu furiosa da sala de aula.

Fiquei imaginando qto tempo demoraria pro vigilante me chamar pra ir a diretoria me explicar e receber o aviso de suspensão. Mas não foi exatamente isso que aconteceu. Para minha surpresa ela mesma veio e me perguntou onde havia comprado aquela coisa eca ali no copo e porque ela estava ali em cima da carteira. Então eu lhe disse:
- Nunca mais se meta comigo sua velhota encardida, coróca, lambisgóia, podre, feia, jeca, brega e..e..! E foi neste momento que a terra se abriu e apareceu um diabão vermelho que me falou:

- Ô fia, ce ta cendo muitcho ruim com a coitada da veia, ucê vai tê que decê cumigo pra tomá banho de enchofri e servi de cinzero pros diabo la debaxo.

Olhei aquele sujeito horroroso com mal halito e pelos na orelha e senti um arrepio na nuca. Não iria com ele nem no MacDonalds quanto mais em algum lugar "la embaixo" pois foi quando a mão bondosa de dona Geraldina pousou docemente sobre meu ombro. Não sem guaguejar, tamanha foi minha surprêsa, ao vê-la de volta à sala toda delicada e interessada na minha eplicação balbulciei:

- Do-dona Gege-raldi.. e a classe caiu na gargalhada, virei eu motivo de riso. Que vergonha! Não devia ter ficado com raiva eu sei, mas só me restava mesmo terminar o que havia começado, e sem piedade dei uma dentada naquela mão berrugenta e lhe arranquei um dedo. A praga urrava de dor enquanto eu cuspia pela janela aquele dedo ossudo cheio de anéis.

O sangue espirrava nas minhas coleguinhas que boquiabertas não ousavam um pio. O diabo tentando me puxar para baixo, dona geraldina querendo ir procurar o maldito dedo, o vigilante querendo me levar pra diretoria, uma fome danada, era muita coisa pra aturar então gritei bem alto:

- Eu te mato velha mijona, vou arrancar sua pele e fazer tamborim! Arrancar suas tripas e fazer estilingue pra te dar pedrada nessa sua cabeçona careca Foi aí chamaram o padre pra me exorcizar mas ja era tarde, o padre veio e falou:

- Fudeu... e saiu correndo tão rapido que quando parou 10 minutos depois caiu morto de exaustão, a duas cidades de distancia. Era um padre rapido mesmo, tanto em suas declarações quanto na corrida. Enfim, sem cura para o mau, os moleques da classe começaram a cair pelo chão sofrendro de queimaduras na pele por causa de minha aura maligna que exalava gases venenosos, e foi aí que chifres enormes surgiram em minha cabecinha e fui ficando vermelha, depois roxa e uma cauda espinhenta começou a se desenvolver no fim da minha coluna. Minha boca aumentou que nem a gaveta de meias do meu pai e presas pontiagudas brotavam de minhas gengivas. Nem pestanejei e dei uma dentada na cabeça de dona geraldina e a engoli.

Os coleguinhas ali espalhados pelo chão soltavam fumaça e alguns ainda convulsionavam. Derrepente uma mão me chacoalhou e disse:

- Menina, você está bem? o que foi que vc tomou?!? Olhei em torno e vi que estava no quarto do meu irmão cabeludão qque ouve musica barulhenta. Não havia chifres nem coleguinhas espalhados pelo chão, so eu babando num canto e meu irmão com um saquinho de papel nas mãos.

- Vc comeu meus cogumelos mágicos sua moleca!!!

Meio estupidizada pelo gosto de cabo-de-guarda-chuva daqueles pequenos fungos comecei a cantarolar:

- Quem sabe eu ainda/ Sou uma garotinha/ Esperando o ônibus/ Da escola, sozinha/ Cansada com minhas/ Meias três quartos/ Rezando baixo/ Pelos cantos/ Por ser uma menina má...

Renato Ferreira, Rose Dayanne, Josy, Tina, Emilia, Sueli Aduan, Youkai e Cajadomatic
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