quinta-feira, 8 de abril de 2010

Somos feitos assim


Paf!
Mamãe me deu um sopapo, bem que eu mereci. Claro que fiquei com raiva, um tapão na nuca nunca é bem vindo. Mas a culpa não foi bem minha. Nao quebrei o braço do João, juro, ele se quebrou sozinho, já disse que nao faço essas coisas poxa, porque não acredita em mim? Sei que as pessoas a meu redor sempre se machucam misteriosamente, menos na minha familia, talvez sejam imunes a mim, nao sei por que, afinal nao sou esse tipo de pessoa.

Lembrei-me do episódio poucos anos mais tarde no ônibus que me levava de Vila Mariana a Penha. Lento e monótono o ar viciado por tanta gente respirando ali, o silêncio de tédio me deixavam de saco cheio. Eu vinha sentado na janela com um estranho ao meu lado. Não bastando o calor e o abafamento o sujeito, meio grande, meio gordo, dormia e esparramava-se no banco contribuindo para meu desconforto.

Foi quando num gesto brusco, para melhor me acomodar, esbarrei em seu braço. O sujeito acordou. Olhamo-nos rapidamente, uma fração de segundos e foi o que bastou. Sorrindo me disse:
- Mas não é possível, não pode ser... Estou te reconhecendo! Você não é...? Você era vizinho da tia Alice, na rua Mandu..., não era? Meio aturdido com a pergunta, ainda entediado e sem nenhum entusiasmo, respondi:
- Sim, morava ao lado dela. Mas, não estou conseguindo me lembrar...
- Sou o Laércio, interrompeu-me. Filho da Jandira que morava na mesma vilinha de casas, lá na Mandú, lembra?
- Ah, agora estou me lembrando! Você e eu costumávamos brincar lá na rua, não é?
- Nossa! Faz muito tempo. Não voltei mais lá desde que mudamos.
- Mas, como vai a vida?
- A vida?! Ah! A vida.É meio complicado... Não é no momento do jeito que eu gostaria, mas dá pra ser feliz de vez em quando. Quando meu time ganha, quando entra um dinheiro a mais, disse brincando.
- Mas, olhei para ele com mais atenção, você está muito diferente... esta barba, os cabelos longos... como me reconheceu? Tenho a mesma cara que tinha quando criança?
- É teu olho. Ele olha do mesmo jeito de quando eramos guris descabelados apertando campainhas e correndo pela vila.
- Bom vc não da pra perder com esse cabelo vermelho que deixava as velhotas da rua em desespero, hahaha, fomos mesmo moleques imperdoáveis hein?
- Acho que fomos mesmo, mas a vida se vinga, tenho dois filhos que me deixam de cabelo em pé
- Não brinca, tenho dois moleques tambem, mas são bem tranquilos um pensa que é o papagaio do platão e o outro a vitrola do Juca Kifuri.
- Uau, um filósofo e um esportista...
- Nada, dois tagarelas, mas tranquilos, acho até que nós fomos bem piores, disse Laercio.
- Não sei com respeito a teus filhos. Mas quanto aos meus, com certeza, eu fui bem pior. Sumia para ir nadar no lago azul e só aparecia a noite.
- Lembro bem disso, disse Laercio, uma vez você tomou várias chineladas nas pernas. Tua mãe estava possessa.
- Coitada, respondi, é que de vez em quando morria algum garoto afogado por lá... dona Gloria tremia de medo.

De repente voltei à minha própria infância, ouvindo (sem querer, juro!) o encontro casual desses dois homens feitos, com suas reviravoltas de vida, alguns sonhos de criança concretizados, muitos outros não e ali, na minha frente, como num filme, revivi a promessa feita e o sonho que não se realizou, pelo menos não para mim.

Será que ele se realizará ou será deixado de lado aos poucos substituido por outro sonho? Com o passar dos anos não temos mais sonhos.

Só desejos.

Uma obra escrita por Sergio Cajado, Youkai, Sueli Aduan, Renato Ferreira, Tina & Nalucky

7 comentários:

  1. " Com o passar dos anos não temos mais sonhos"

    sim, temos e quem sabe até mais!!!gosto mutito daqui!!!!
    abraços

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  2. Queridos parceiros,
    o Anônimo desta história sou eu, Renato Ferreira, amigo do Cajado.
    Gostei muito desta idéia de escrever em mutirão. Muito legal!
    Só não escrevi em meu nome porque não encontrei a maneira de me inscrever corretamente no blog. Prometo que vou corrigir isto.
    Pretendo continuar seguindo vocês.
    Gostamos bastante da historia finalizada, eu e Sonia, minha mulher.

    Um abraço a todos.
    Saudade de você, Serjão.

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  3. Trilha sonora sugerida... ^^
    http://www.youtube.com/watch?v=ZUYzX5LjRr4
    XD

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  4. Um texto gostoso,leve... Muito bom,além da poética da imagem e título.

    parabéns a todos.
    abs
    vamqvamu

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  5. Oi Mira, seja sempre bem vinda!
    fala Renato, meu velho amigo, bom participar deste lance contigo! Convida a Sonia tambem pra ajudar a escrever quando ela tiver afins!
    Pipôl, acheibem bacana essa nossa historia! tapinhas nas costas coletivos pra todos nós o)

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  6. ficou muito bom, meesmo! Nuus.. Há quanto tempo eu naõ passava por aquii :D

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