sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Segredo sob neve



“Perdera a conta de quantas voltas dera em torno do quarteirão. Em cada uma delas os olhos se dirigiam para a janela do terceiro andar na esperança de que as luzes se apagassem. Ansiava por um sinal de assentimento à sua fuga, de conivência com sua covardia. Mas aquele abajur opalinado que tantas vezes acendera, tateando no escuro, insistia em se manter aceso. O sinal era opaco, mas incontestável: a verdade precisava vir à luz.


Determinado,  parou o carro em frente à entrada do pequeno hotel de apartamentos e depressa se pôs a subir as escadas. Sentia-se cansado. Ofegava. Já não era aquele adolescente atlético e simpático que atraía a atenção das garotas. No segundo andar se deu conta de que apenas o cansaço não era causa suficiente para a taquicardia. Parou para descansar um pouco. As lâmpadas das escadas estavam apagadas e através da penumbra percebeu um corpo caído e que os seus sapatos estavam em uma poça de sangue. Com a visão de um possível cadáver, seus músculos aquecidos se contraíram repentinamente e junto com o susto veio a perda do equilíbrio, os braços dançaram no ar em busca de apoio, mas sua sorte já havia sido lançada. Tombou de costas contra um lance de degraus sólidos e sentiu uma dor aguda e excruciante nas costelas que se partiam com o choque. Mas o pior ainda não passara, com a inércia e a gravidade a seu favor, em sentido sarcástico, rolou escada abaixo em rotação desengonçada, partindo seus ossos do braço esquerdo, seu nariz, seu maxilar, abrindo o supercílio e, por fim, estirando-se de costas contra uma parede de canto qualquer, inconsciente pelas sucessivas pancadas na cabeça.


O barulho estrondoso da queda despertou os vizinhos. Portas se entreabiram. Pessoas assustadas olhavam pelas frestas. Aos poucos deixaram seus apartamentos, vinham de todos os andares e se amontoavam em volta do corpo caído na escada. Estavam prestes a socorrê-lo quando ouviram um grito de pavor ecoando do terceiro andar. Era mais uma vítima, não fora a primeira, nem seria a última daquela noite no Hotel Darbus. Um dos moradores resolveu descer e pedir ajuda na rua quando percebeu que todas as portas estavam trancadas. De repente todas as luzes se apagaram. Apenas a luz do terceiro andar continuava acesa, como um dedo em riste aponta um criminoso.”


Ele, misteriosamente, clareava aquele pequeno espaço na tentativa de que o segredo viesse à tona.  Parou de escrever e releu o texto. Havia escrito muitos romances policiais em sua vida mas deste dependia sua aceitação nesta editora.


Acendeu um cigarro e foi até a janela. Precisava dar continuidade, manter o suspense, despertar o interesse, ser inovador. Jogou-se na poltrona da sala olhando para o teto. Nada mais vinha à sua cabeça. Lembrou-se de antigos filmes com o Humphrey Bogart. Detestava Casablanca. Gostava de A rainha da África.


Resolveu voltar para o hotel. Sentia-se tão quebrado como seu personagem. Olhou o teclado com letrinhas sorridentes e apertou retorno. Nova linha, agora em branco. A luz do terceiro andar se apagara de repente.


Deitado, observando a neve cair por trás da janela, refletia sobre o título do romance abortado. Sobrou neve e faltou segredo. Restava-lhe apenas sono sob neve. Antes dormisse ele que seus leitores.


Tina, Fred Matos, Youkai, Sueli Aduan, Cajadomatic, Dana Paulinelli

6 comentários:

  1. Taê! Gostei, eu sempre acabo gostando do resultado afinaal! :)

    skakska

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  2. eu tava gostando mas ai acabou. Sei la, acho que dava pra espichar um pouquinho. Sei que todo pintor tem que saber a hora de acabar sua obra, por outro lado me senti um pouco culpado por ter mudado a viagem inicial, mas a gente tem que chacoalhar um pouco o convencional, ferver os miolos alheios pra gerar algo inédito... não?
    baci a tutti :o)

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  3. Uiii esse ficou bem diferente... e foi tão rápido... quando ia participar acabou ... mas está otimo

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  4. Xiii, fiz igual menino-dono-da-bola-em-campo-de-pelada, heim!? Coloquei a bola debaixo do braço e terminei o jogo antes da hora.
    Mas, no meu caso não foi coisa de menino pirracento, não. Estou aprendendo as regras do jogo jogando. C/o tempo pego o jeito.
    Sérgio, não se sinta culpado. Gostei da mudança.
    Kátia, sorry!!
    Tina, bom que vc gostou.
    Abraço a todos.

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  5. adorei esse "vaptvupt",(e de quebra um belíssimo texto).

    parabéns a todos nós.

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