terça-feira, 17 de novembro de 2009

Às voltas com o tempo




Panta rei, diz Heráclito, se é que disse. Tudo corre, tudo passa, tudo flui. Não posso entrar no mesmo rio duas vezes, porque não será mais o mesmo rio. Muda o rio, mudo eu? Mas, então, a minha nuca que recebeu hoje um beijo e sentiu hoje um arrepio, amanhã -tomara os receba e sinta- não será mais a mesma nuca? Ou não serão os mesmos pêlos a se eriçarem? Ou não a beijará a mesma boca, ainda que seja a mesma? E o caminho que percorro todos os dias até o trabalho, como posso sentir por isso tamanho tédio, se tudo já mudou? Cada árvore, cada passeio e passeante, cada carro e cada nuvem, cada som e cada cheiro e cada cor, cada eu que já passou. Se já não sou a mesma de ontem e não serei eu-hoje amanhã, então, quem sou?

Sim, quem sou? Ontem passei em frente à mesma farmácia na qual um cara fantasiado de pacote de fraldas descartáveis ganhava o seu trocado. Vá lá, honestamente, que era um papel ridículo, era. Mas amanhã ele deixará de ser essa coisa imposta pela necessidade. Eu não, serei eu mesma. Ou não. Talvez cada hora que eu olhe, por cima do parapeito da ponte, o rio que corta minha cidade - rio que já mudou de curso, teve o seu leito assoreado, já inundou a ilha sobre qual se funda nossas vidas- seja uma hora ridiculamente igual. Diferente só meu modo de olhar, minha invenção de viver assim, só olhando, pensando, deixando as coisas acontecerem e eu não mudar. Não mudar? Tudo muda! Eu, me olhando no espelho, meus resquícios de mesmice.

Penso que talvez eu não seja a sombra do tempo consumida pelas cinzas e tons que se desintegram. Nada mais é, o que nem sequer já foi, nem eu. Nas águas, ou em qualquer outro elemento, as marcas que não possuem significado algum determinam as eras, datam a insignificância e a beleza do estado do devir permanente, incluindo eu. Digo então: a compreensão tem de ser conquistada. Digo então: a arrogância tem de ser conquistada. Mas nada nem ninguém conquistará o incontestável estado de movimento indiferente da energia que repousa em todas as coisas. Panta Rei, pensou Heráclito, os olho fitos num rio em que não me banharei. Talvez por força do hábito. Eu periclito, mas rio do mar que outrora pensei.

Heráclito e seu rio. Eu, eu sou mar, eu sou maré. Sou ressaca lambendo as pedras na praia. Sou a chama de uma vela que queima sem cessar, transformando a cera em fogo, o fogo em fumaça e a fumaça em ar. E o dia se torna noite, o verão se torna outono, o novo fica velho. O quente esfria, o úmido seca.

E tudo nos oferece ofertas ocas na vida. Sou todo o nada nadando no vazio no cio do absoluto, perdendo-me no infinito do eco de minhas incertezas azedas. Idas, indas e vindas de uma lima que rola roliça em terreno plano quadrado torto inclinado sem certas ofertas. Sobe, e o que trouxe? Desce o trago da vida que suga convoca convida expira e inspira a (s)er, mais que nada, sendo. O tudo, os vazios dispersos sob os olhos dos cegos. Pulo dos que nada inspiram, desvio dos que nada ofegam, derrapo dos que vegetam, driblo os que esqueceram de morrer. Prossigo doando sobras de espaços vazios a serem preenchidos com palavras lineares desconexas convergentes complexas congruentes óbvias sóbrias. Começo-meio-fim, paro. A palavra sou eu.


A infinitude do passar, passar, passar, e vir a ser um raspão veloz, atordoada de vida, era de muitas eras. Eu era... finita e eterna. Como posso dizer como se fosse lógico este incompreensível fato finito sem fim. A cabeça não alcança a veloz idade do tempo e se desmancha daí, sem ser acaba sendo. A mancha do que passou e não há mais sem deixar de ser. O beijo impresso pela boca que não é, na nuca que jamais será. Eu fragmento me pondo inteira na ficção dos pedaços da vida. O tempo me expandiu em muito mais de muitas vidas. Tornei-me plural de mim tão singular.

E o tempo nos oferece a oportunidade de ser-de-novo, ser-continuamente; o medo de ser-em-partes, ser-fragmentado; a esperança de ser-pela-primeira vez, ser neo-nato. Pérpetuo primeiro de janeiro, ser novo ano a cada momento. Mas o que eu faço com isso que o tempo me faz?


Nada. Porque ele é o Deus/Tempo senhor absoluto. Aceito-o docemente, ouço sua voz sussurrando em meus ouvidos: _Memória e futuro juntos, talvez! Vivo, convivo na alegria de cada instante, na beleza de cada encontro em que me reecontro. Um eu feito de muitos outros e outros e tantos outros. Sou eu às voltas com o tempo.


Estiveram às voltas com o tempo: dana paulinelli, alisson da hora, youkai, christiana, sueli aduan, nanda lym e cristina siqueira.


7 comentários:

  1. Danaaaaaaaaaaa, ficou MUITO legal!! =DDDDD Adorei a "brincadeira"! Sério mesmo! Um desafio criativo e tanto! Postarei a versão que colocastes aqui lá no meu blog! Obrigada pelo convite!=DD
    Grande abraço!=DDD

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  2. UAU!!!!!!!!!!!!!

    Quero brincar mais disso!
    Dá até tontura de tanta volta e meia ,meia volta.
    Muito bacana.

    Beijos de entusiasmo,

    Cris

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  3. É muito bom esse entusiamo todo!!! Lindo!Lindo!

    vamuqvamu!

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  4. Texto ríquíssimo!
    Belíssimas imagens poéticas.
    Vc muda um ponto, uma vírgula e a imagem se desdobra em três, dá voltas sobre si, como o tempo.
    Parabéns a todos!
    Abraços.

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  5. Tambei achei muito bacana!

    pedido especial: Da pra não usar times? Serifa me da urticaria :o) Bolda o texto e usa tamanho normal.

    Pois continuem crianças, vcs são o maximo, criatividade, requinte e charme! Parabens!

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