terça-feira, 12 de maio de 2009

Sentindo sentidos

8 hands


Estava andando, senti um cheiro. Tinta fresca, as grades da cerca haviam sido pintadas. Continuei mais um pouco e ouvi um som. Um pequeno monomotor voando la no alto. Comentei com meus botões que como sempre nada responderam. Pasei a mão pela sebe, senti o orvalho frio entre meus dedos. Olhei ao redor. Senti o gosto do vazio. Um gosto contrário ao do cheio. Do volumoso. Do extenso. Minha história se encurtava, ou eu era apenas um nervo à flor da pele, reclamando atenção? Nem as cores que o cheiro da tinta enunciavam poderiam me dizer sobre nada nesse momento , eu pressentia. Presentia o momento em que os sentidos anunciavam o vazio dos dias. O vazio na alma. Precisa preencher os espaços. Novas cores, novos cheiros, novos rumos. Como seguir em frente? Agora, nada teria mais importância, a cerca vermelha, a casinha branca ao fundo, eram apenas imagens contrastes para uma realidade que se anunciava . Em poucos minutos ,talvez eu tivesse a resposta.

Perplexo senti meus pés chafurdando lentamente no lodo. Entravam meus movimentos este lodo negro? Se estivesse mesmo entravado poderia submergir nestas ideias arcaicas neste questionar infundado que agora afundavam inescrupulosamente no seio da terra. Havia de deixar com que voassem meus pensamentos para longe dali. Era preciso. Como um pássaro livre em seu vôo matinal, meus pensamentos ziguezagueavam para longe dali... e, retornavam...retornavam... como se uma força me puxasse, me prendesse no centro de tudo, e eu já não era mais senhor de mim, irresistivelmente atraído pelo cheiro agridoce um cheiro a lembrar cores, cores de um outro tempo. Era tão vazio o gosto que sentia, e o monomotor eu pedia pra alcançar e assim voar pelos campos e sentir que voando o vazio espalharia minha alma ao vento...como o pólen...e o cheiro agora era da brisa da aurora...

Qual seria a sensação de voar feito o pássaro e me atirar no campo de trigo? Talvez voar fosse leve como a puma talvez vertiginoso como o abismo, mas como senti-lo? Em meus sonhos voaria e suavemente inundaria meus olhos na paisagem diafana do trigal, me espalharia como se fosse polem no ar, mas em algum lugar de minha alma sentia medo.

Um medo que percorreia todo o meu corpo, subia pelos meus pés, lentamente, gelava as minhas costas para explodir com toda a fúria na boca do estomago, paralizando assim,os menores movimentos do meu corpo: o piscar dos olhos, o quas sorriso, e a impotência pra chorar. Desse medo, dizem, é que nasce o melhor de nós.

Arrisquei um olhar para o céu. Me vi voando. Levantei um pé lentamente depois outro e alcei vôo na imensidão azul!
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