sábado, 11 de julho de 2009

Os amigos o chamavam de Gummer


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O dia estava esplendido e da janela do ônibus podia ver nas ondas gordas, exatas, os tubos se formando perfeitos rolando centenas de metros até explodirem na areia alva e fina. Não pude resistir e apesar do paletó, gravata, a obvia farda de bancário dos pés à cabeça, desci do bus com o coração acelerado e, com imensa euforia, olhei para um lado, depois para o outro, com medo que alguém pudesse perceber estado tão alterado, afinal não é sempre que se tem uma atitude dessa, ainda mais...vestido daquela forma. Pensariam que era uma tentativa de suicídio, e foi exatamente o que ocorreu, numa fração de segundos uma multidão a minha volta. Apesar de constrangido gostei, afinal não é sempre...ainda mais..que uma equipe de reportagem da TV Globo se aproximou e o repórter me enfiou o microfone na cara. Perguntou sem qualquer preâmbulo, sequer sem me perguntar o nome:

– Foi o senhor que ligou informando que havia um hipopótamo surfando nesta praia?
– Sim, eu liguei, mas não foi exatamente pelo surf, que aprecio muito, mas pela falta de decoro desse animal, digo de sua companheira.
– Como assim? perguntou-me o repórter.
– Olhe o senhor mesmo, respondi. Não é uma escandalosa? Considero no mínimo uma indecência que uma girafa venha de topless a uma praia tão movimentada e principalmente neste horário da manhã, quando é freqüentada, sobretudo por babás, avós e jovens mamães que trazem as crianças para banharem-se ao sol.

Surpreendentemente, a equipe de reportagem da TV Globo já não tinha interesse por mim, nem pelo casal fenomenal que naquele instante trocava beijos lascivos. Acompanhada do séquito humano, a equipe vencia as ondas, primeiro correndo e, com água na cintura, nadando loucamente na direção de um cardume. E, eu não deixei por menos, segui junto, afinal não é sempre...ainda mais...quando se apresenta a oportunidade de ver peixes se afogando. Eu mesmo nunca sequer imaginara que havia peixes que não sabem nadar. Era um fato tão inusitado que ninguém notava que eu caminhava sobre o mar vestido a rigor. Todas as atenções se voltavam para o cardume, mais particularmente para um peixe que parecia ser o líder. Usava cartola, óculos escuros, relógio de algibeira e quando sorria cintilava um dente de ouro.

A uma pergunta do repórter, que eu não consegui ouvir porque o pobre coitado tinha nacos de sargaço entupindo-lhe a garganta, ele respondeu como se estivesse fazendo um discurso solene para a nação:

– Esta crise não é minha. É do cardume. Da praia eu podia ouvir a platéia dividida entre os que vaiavam e os que aplaudiam e uma voz feminina gritou:

– Como é o nome do peixe? As vaias foram diminuindo...diminuindo e, como num passe de mágica havia uma só voz em coro gritando, como era o nome do peixe. O peixe da frente do cardume que até então se preocupava exclusivamente em perseguir um plâncton suculento pôs a cabeça pra fora da água e disse:

– Meu nome é Gumercindo Ictius de Oliveira. Mas por que perguntam vcs estranhas criaturas secas com pelinhos no topo da cabeça e que respiram ar por orifícios no rosto?

– Porque perguntar é da nossa natureza, vai responde... vai... vai responde... ressp... onde... onde... res....sss ... E naquele dia esplêndido em que da janela avistei extasiado as gordas ondas, em que afrouxei o nó da gravata, dia o qual numa atitude deliciosamente impensada desci do ônibus. Naquele dia, minha pergunta ecoou mar afora, vi Gumercindo ir embora, fiquei feliz mesmo sem reposta, afinal não é sempre que se tem uma atitude dessas.

Kátia Mota, Fred Matos, Sergio Cajado, Sueli Aduan

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