quarta-feira, 4 de março de 2009

Sobre o oceano e outras coisas



Do barco que afundara só restara um escaler, um pequeno bote de madeira com remos e provisões para alguns dias. Nada se via no horizonte exceto a imensidão do oceano.

Os dois ocupantes da pequena embarcação tinham origens diferentes porem dominavam uma lingua em comum o que permitiu que pudessem ponderar sobre a inusitada situação em que se encontravam.

15 comentários:

  1. François estava quase desfalecido, engolira muita agua salgada até alcançar o bote. Não era mais jovem e estas aventuras não condiziam mais com seus desejos. Olhou para o outro ocupante que o observava com a mão no queixo e apresentou-se:
    – Permita-me introduzir-me cavalheiro, não na melhor das situações hei de convir, François é meu nome, tambem conhecido como senhor de Voltaire, ao seu dispor, se isso for de alguma forma possível.

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  2. Sempre é possível, senhor de Voltaire:
    O servir, mas dispenso-o.
    Ainda que em tempos como esse, e não digo isso, entenda-me por favor, por essa imensidão oceânica. O que representa esse pequeno incidente, ainda que para o senhor quase custou-lhe a própria vida, pelo jeito é um forte.
    Mas se o digo é pensando num outro, muito maior,e, sim, chamo-o de incidente,um desvio,um clinamen:
    A servidão humana.
    E o senhor qual nome dá?

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  3. François levantou um sobrôlho e mediu aquele homem radiante de sobrancelhas espessas e bigodes brancos. Pensava que era um marinheiro ou algum oficial da fragata naufragada. Suas mãos grandes sugeriam algum oficio braçal. Intrigado com a pergunta restringiu-se a olha-lo e imaginar o que movia aquele homem a enunciar uma questão tão retorica como aquela. Sorriu e respondeu.
    – Dou o nome de acidente. Certamente não o fato de estarmos aqui no meio de coisa alguma vendo nosso barco ser engolido pelas profundezas mas sim a não reação dos que deveriam fazer algo contra tal situação mas que por algum motivo obscuro preferem se sujeitar ao invez de empreender algo. Talvez seja mera ignorancia, falta de poder ou ainda de conhecimento para livrar-se de tal condição... não a humana, a da servidão. Perdoe-me caro senhor, não peguei o seu nome...
    O homem levantou equilibrando-se no pequeno barco e olhou aquele pequeno individuo de nariz aquilino e cabelos longos e disse:

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  4. Peço desculpas, senhor, deveria ter-me apresentado, mas não sou dado a formalidades. Ainda que sinta, ser as vezes necessária.
    É que a paixão que me move dispensa tais gestos,mas percebo pela delicadeza de sua fala,de seus movimentos, que pode compreender um homem como eu, ou pelo menos tentar.
    Tempo é o que não nos falta.
    Pode me chamar de Gabo.

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  5. Enchantée Monsieur Gabo, vejo que as letras invadem tambem seu coração. Embora isso seja uma feliz coincidencia não podemos negar o fato de que estamos, como dizem os ingleses, numa sinuca de bico, aqui abandonados a merce da natureza e seus humores imprevisiveis.

    Confesso até que um pouco de servidão humana seria bem aprazivel se pudesse nos servir um bom vinho e algumas almofadas para acomodar as costas nesta embarcação de poucos confortos.

    Seria presunçoso de minha parte imaginar que o senhor possua consigo uma garrafa de um bom Château Du Cèdre que pudessemos esvaziar e meter dentro uma mensagem de socorro?

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  6. Meu caro Sr.Voltaire:
    Vejo que é um apreciador das coisas boas da vida, como todo nobre, mas devo alertá-lo, se me permite, que os tempos são outros.
    Admiro sua ironia,eu diria até um certo sarcasmo.Brilhante.
    Mas não concordo com o senhor, ainda que minha costas estejam doloridas e um Pétrus,agora fosse formidável. Ainda assim, resisto.É preciso.
    Mas mesmo não concordando com suas palavras, defendo o direito que tem em usá-las.
    Em tempo... o pedido de socorro, esse sim é bem vindo.
    Então à luta..

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  7. Bem, ca estamos em meio a imensidão marinha a ponto talvez de perder a vida por desidratação ou insolação e o senhor defende meu direito de expor minhas palavras, ora, eu mesmo não teria dito melhor porem acho de certa maneira candido de sua parte não perceber que estamos a beira de viver aqui isolados, por talvez cem anos de solidão. O que o senhor sugere que façamos para conseguir socorro?

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  8. O que eu sugiro,Sr François? Ora, tenha Santa pa-ciência...perdão, retiro a Santa, respeito-o muito.

    Penso que devemos resolver essa questão juntos.E suas ideias? Porquê não as manifesta?
    Sinto uma precoupação exagerada ,de sua parte,com a vida ou seria com a morte?
    Quanto a solidão, meu caro, de um dia ou Cem anos,não importa. Cuidarei candidamente.

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  9. Vejo que o desespero começa a tomar conta de sua pessoa. Talvez seja o sol. Sugiro que simplesmente comecemos a remar e com um pouco de sorte alcançaremos a costa, quiça Macondo se é que tal cidade fique no litoral. Quanto a minhas ideias duvido muito que minhas conjecturas sobre vida e morte possam de alguma forma nos tirar de tão insolita situação. Me parece ter o senhor mais experiencia com o insolito do que eu, daí ter imaginado que de dentro das profundezas insondaveis de seu cerebro alguma solução pudesse vir a tona. Entendendo todavia que o senhor se diverte mais em colocar em cheque meus conhecimentos do que emitir sua propria opinião sobre as coisas deste mundo, rememos pois.

    Passadas algumas horas uma fina chuva começa a cair sobre a região. O barco começa a ficar molhado por dentro e por fora. Um pontinho no horizonte chama atenção dos naufragos exauridos. Decidem ir na direção do que poderia ser uma ilha, um barco ou mesmo o continente. Depois de muitas horas de briga filosofica, sarcasmos vãos e esgotamento fisico os homens notam que a distancia é muito maior do que imaginavam pois por mais que remassem o ponto ao longe continua a não passar de um ponto ao longe.

    Diga-me velho Gabo antes que eu o atire aos tubarões para tentar com eles uma aliança. Nesta cidade que vc me contou onde os velhos tem asas brancas, onde envelhece o carrancudo patriarca, alem das putas tristes, o cólera, existem tambem coisas comuns como crianças que brincam e mulheres belas ?

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  10. Sr.Voltaire:
    O senhor, melhor do que ninguém,
    conhece os estados que nossa pobre alma humana pode passar..
    Calma. Essa experiência , há de nos mudar completamente , de uma maneira que eu chamo de magnífica ,pois vivenciando o mesmo, o resultado será outro para cada um de nós. Aliás,já esta sendo.Isso não é maravilhoso?
    O senhor talvez possa pensar, que para mim é mais fácil, e não pense o senhor que falo isso por sentir-me preparado, pronto, e essas tolices todas. Se falo é em respeito a um grande amigo, das horas de solidão, quando no meu quarto eu rasbicava: Luis Alejandro Velasco, e os 10 dias que o passou a deriva no mar sem comer nem beber.
    Como vê Sr. Voltaire, minha paixão sempre à frente dessa realidade imediata.
    E o Sr tem razão, a solução penso virá da mente, da nossa espero, a força física essa já não a possuo.
    Vejo que o fato de divertir-me incomoda-o,a ponto de num ato de loucura quer jogar-me aos tubarões.
    Não pensa que assim sua solidão será insustentável,o que o Sr chama de briga filósofica, acredito ser seu alimento favorito, não?


    Mas não fujo não, sairemos desse barco.
    Quanto a cidade que eu lhe contei, vai depender da sua imaginação, meu caro.
    E
    Será imaginação minha esse Cheiro de Goiaba, ou talvez alguma ilha próxima....serão bananeiras?
    O que acha Sr. Voltaire, Tabaco?

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  11. Fico feliz em saber que se diverte meu caro, por favor não leve minhas expressões ao pé da letra. Vou colocar minha mente em funcionamento para nos tirar desta situação. Me fascina o fato de que me conheça tão bem, so nos apresentamos ha algumas horas... mas, o que é uma goiaba?

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  12. Então veio uma tempestade enorme, uma borrasca formidavel que virou o barco. Os dois foram comidos pelos tubarões e Voltaire nunca ficou sabendo o que era uma goiaba.

    FIM

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  13. Desculpe-me Sr. Voltaire, estamos nesse barco juntos, e permita-me: como sabe minha imaginação é fértil, e mesmo aqui dentro desse tubarão, meus pensamentos não param , quero apenas agradeçer a companhia,dessa viagem tão cheia de percalços e divertimentos.
    E sei que compreende meu espírito revolucionário.
    Não posso aceitar um fim sem antes...manifestar-me ,que pena que o barco virou, eu teria o imenso prazer de ler Cheiro de Goiaba para o Sr, na ilha que imagei sempre estar,, tenho um grande amigo lá.
    Até poderiamos fumar um bom charuto.
    saudações SR. Voltaire

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  14. Bom Gabo, para um sulamericano até que vc é bem formal. Pense no lado positivo, pelo menos o tubarão não nos mastigou, apenas nos engoliu permitindo assim que continuassemos nosso dialogo aqui nas tripas deste monstro aquatico.

    Gostaria mesmo de ter provado destas tais goiabas. Quanto ao charuto, aceito de bom grado, existem certas coisas que quebram o gelo, como um vinho ou mesmo um charuto, contenha ele o que contiver incluindo até mesmo estes cactus mexicanos que me parecem ter um bom efeito moral sobre nossa moral.

    Tambem tenho um amigo numa ilha que fuma charuto, mas ele esta velho e passou o charuto pro irmão. Realmente foi um prazer naufragar com tão ilustre pessoa e espero que ao sermos digeridos possamos ainda analisar as entranhas do nosso amigo de barbatanas.

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