sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Como Hera viu o tempo passar



Quase noite. Sala espaçosa. Cheiro de jasmins.

15 comentários:

  1. Ha quem diga que o tempo não passa, que está fixo num continuo que se repete. Sentava-se confortavelmente ante a vista avassaladora que se descortinava sem perder muito deste tempo pensando em como tudo podia ser breve e lento ao mesmo tempo. Como dois tempos musicais distintos. Olhou para o piano coberto de porta-retratos. Ele não era aberto há exatos seis meses. Lembrou-se das palavras do padre na missa horas atrás e esboçou um sorriso de tolice. Ou de ódio. Como as pessoas eram capazes de praticar tanto a hipocrisia com uma naturalidade inquebrantável.

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  2. Sua fé se estendeu. Desfixou tal quadro da mente para se dar conta que anoitecia. E era à noite que ela desfalecia meio pálida no sofá da enorme sala mobiliada com suas lembranças. A noite era sua única companheira real, confidente, cumplice de seu coração irriquieto.

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  3. O telefone tocou, era um esforço tremendo levantar para atende-lo. A lua olhava para ela atravez da janela, desconfiava de seus movimentos. Não fazia tanto tempo que os pedaços de sua alma ficaram ali espalhados pelo tapete da sala. Lembrou-se.

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  4. Por algum espaço de tempo, curto o suficiente para parecer curto, toda a lembrança se dissipou rapidamente. Atendeu ao telefone.
    Do outro lado, a voz. Conhecia aquela voz. Não sabia precisar o momento, o local, nem de onde. Mas sabia que conhecia.
    A voz, com a entonação de quem reza, lia um texto desconhecido. Fixou a palavra "gárgula". E quase pediu à voz que nunca mais desligasse. Ou que continuasse falando até ela lembrar-se: de onde?
    Tarde. O uníssono do timbre do telefone já ecoava em meio à memória recente. A voz.
    Que deixava uma dúvida infernal, quase uma súbita lembrança, de alguém que ela não sabia precisar.
    Ainda que percorresse a memória em busca de todas os rostos donos das vozes que já ouvira no mundo, nenhum deles indentificava aquela. Aquele timbre. Parecia uma reza. E foi aí que se voltou à lembrança. Sua alma espalhada no tapete. Seu corpo espelhado na alma. Com um sutil desencaixe. Como se não se pertencessem. Não de verdade.

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  5. La fora amanhecia e o barulho da rua ia entrando por todos os cantos. Alguem martelava algo como se quisesse arrancar seus pensamentos mais intimos e joga-los la fora onde a realidade tomava forma novamente. Resistiu. O telefone tocou de novo mas não atendeu desta vez. Abriu a porta e saiu. Viu o sujeito que martelava um maldito caixote. Ele se virou para ela como se presentisse sua indignação. Parecia um gárgula de Notre Dame, feio a ponto de espantar até os maus espiritos. Pensou no padre e foi andando pela alameda acima resmungando alguma coisa incompreesivel. Odiava padres. Entrou numa padaria e pediu um café. Olhou o relogio, estava atrasada.

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  6. Também, do que adiantaria chegar na hora?Provavelmente seria a única.

    Ao dobrar a esquina, deu de cara com eles dois. Altos, magros, os dois usavam dois pares de óculos idênticos.

    Dificultaram sua passagem a principio, e quando ela pensou que estava livre, se sentiu tragada pelos braços de ambos. Logo foi obrigada a largar as pernas sobre a calçada, e as solas de seus sapatos riscavam uma grafia sinuosa sobre o concreto.

    Estava sendo arrastada e ninguém fazia nada. Foi quando se deu conta de que não havia ninguém nas ruas. Nem mesmo as ruas pareciam ruas. Aos poucos, o que até então lhe parecia real, foi se tornando um risco. E como se estivesse em um túnel, tudo criava ponto de fuga.

    Tentou se lembrar o que tinha comido antes de sair, mas... saíra de onde, mesmo...?

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  7. – Moça, moça, a senhora está bem? perguntou o rapaz no balcão da padaria, parece que viu um fantasma! O café estava ruim?

    – Ahn? o quê? juntou seus pedaços meio desconcertada. Seus devaneios a levavam a lugares e situações impossiveis. Não, tudo bem, estava só pensando, disse ela, quanto lhe devo?

    – A senhora ta meio branca... quer que eu ligue pra alguem pra vir lhe buscar?

    – Não, não pode deixar. Pagou e foi-se embora ante o olhar preocupado do rapaz.


    A loja de relógios tinha o mesmo endereço ha mais de 100 anos. Carrilhões, despertadores, cucos, ampulhetas, relógios de pulso para homens, mulheres e crianças, digitais, com ponteiros, cronômetros e qualquer aparato imaginável para medir uma coisa que ela não tinha. Tempo. Esvaia-se por seus dedos, transpirava por seus poros, sugava sua existencia no lento e monótono tiquetaquear quase inaudivel dos relógios em sua mente. Precisava agir rápido antes que fugisse do seu contrôle. Lembrou do relógio da Igreja, do padre, do balconista da padaria, dos homens em seu devaneio mas parou. Olhou para o menino na sua frente e disse:
    – Pois não, posso ajuda-lo? Foi quando notou que não estava mais na loja onde trabalhava e sim na bilheteria do metrô.

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  8. Quatro horas. O que seria necessario para chegar ao momento certo no lugar certo. Uma magica, pensamento positivo, uma prece a Deus, contatos pessoais, destino, sorte, morte?

    Mais um trem passou e ela não entrou. Ficou ali sentada olhando o vaievem da pessoas apressadas. Ouviu ao longe o som de um saxofone triste vindo dos corredores perto da rua.

    Mergulhada no fundo de uma piscina olhava o espelho da agua e o sol tremulando na imagem distorcida. Ar.

    Resolveu entrar. O vagão estava apinhado, teve que ficar em pé. Olhou em volta viu uma senhora bem idosa que segurava com dificuldade nas estruturas tubulares, uma gravida e um homem com algumas sacolas na mão. Nos assentos os office boys olhavam pela janela ou fingiam dormir. Nada havia para se olhar atraves das janelas, so as paredes de concreto que passavam a toda velocidade pelo vagão imóvel que chacoalhava como o ninar de um carrinho de bebê. Tudo é relativo, depende do ponto de vista.

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  9. Os pontos de vista eram múltiplos. Ela mesma. Podia ser várias no momento em que quisesse. Bastava ser. E variar. Não raro, ela se perdia para se reencontrar, fosse na esquina ouvindo o som do sax, ou dentro de casa mergulhada em si mesma. O que apontava para saída alguma, era a ausência de uma porta na cor que ela queria acreditar ter o poder de abrir. Azul.
    A porta tinha que ser azul.

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  10. Olhou mais uma vez pro céu e viu a porta inalcançavel entre as nuvens. Suspirou baixinho. Pensou novamente no padre, aquele parasita de ideias fossilizadas que pregava mecanicamente sobre universos desconhecidos. Queria poder deporta-lo para esse mundo imaginario que usava para assustar as pessoas.

    Frido veio de mansinho e lambeu sua mão. Ela afagou a cabeça daquele ser conivente e amigo que tudo entendia mas nada dizia. Fechou os olhos e imaginou quão ardentemente queria ouvir aquela voz doce mais uma vez. Ele não ligara mais e isso doia carinhosamente, sabia o que isso podia significar mas não deu a minima. Olhou para Frido que abanava o rabinho impaciente e resolveu leva-lo passear.

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  11. A rua era a porta para o mundo real, onde as coisaa aconteciam. Diferente do seu mundo pessoal onde podia sarar, remoer ou descartar. O mundo la fora exigia opções e reações imediatas. Não havia tempo. Ninguem parecia te-lo embora existisse em abundancia. Parecia que as pessoas que conhecia eram mais distantes umas das outras do que os atomos ou os planetas. Pareciam bastar-se e buscarem objetivos secretos impartilhaveis. Não entendia isso muito bem, como era possivel cantar uma canção e dançar num outro ritmo? Talvez fossem as coisas simplesmente desta maneira, talvez fosse ela a peça de xadrez no tabuleiro de damas.

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  12. Achava a vida lispectoriana demais. Todas as sombras referindo-se às massas. Cada questão com sua explicação. Histórias e estórias, inteiras na memória, só para comprovar o atual momento. Obsessivo.

    O interessante mesmo seria suar em pó. Inverter a realidade xerocopiada. Resgatar as almas todas paradas sobre as cabeças das pessoas, e que seguiam seus corpos à distância.

    Quem sabe? Devolver-lhes a identidade roubada de si por si mesmas. Mas onde estavam tais identidades?

    E como dar a alguém algo que não se tem por não se pertencer?

    Foi quando viu a sua própria alma. Também projetada no teto, junto a de Frido. E pensou que ninguém mais tinha controle sobre nada.

    Deveria existir uma escada. Uma forma de voltar para dentro de si. A ponto de esquecer do que vira.

    Afinal nada daquilo lhe pertencia, de verdade.

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  13. As lembranças são tolices pois não pertencem mais ao presente. Apenas fantasmas que se riem de nosso tormento.

    Sua projeção no imenso teto branco movia-se com graça. Lembrava de quando era criança e as sombras a ajudavam a dormir. Viu que a sombra era ela mesma e imaginou-se como observadora externa daquela cena, não mais protagonizava aquele momento, era a espectadora e acabou adormecendo.

    Capitulo 2

    Como Hera esqueceu que o tempo passava

    Ele era o bruto mais bruto que existira, ja o sabia, talvez porisso não gostasse que invadissem sua oficina. Falava o que lhe dava na cabeça, doesse a quem doesse e pouco lhe importava se se queixassem. Que fossem se queixar com o Bispo, tanto se lhe dava.

    Um farol tinha que ser num lugar isolado, não numa praia movimentada. Isso o irritava mais ainda, era o unico faroleiro do mundo que tinha de aturar turistas, banhistas, curiosos e visitantes com suas necessidades estupidas. Nem se lembrava mais o que o havia tornado naquele ser intragavelmente azedo. Tinha consciencia de sua tolerancia limitada e de seu vocabulario pouco gentil. Que o deixassem em paz pois sinalizar para as embarcações que ali havia um paredão de arrecifes era a sua obrigação unica que cumpria chovesse ou fizesse sol. Não era burro todavia como se havia de esperar, seu problema era outro.

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  14. Um belo dia ele acordou morto e lembrou-se da moça que sonhava acordada.

    FIM

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