sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Momento sublime

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Desço a rua tranqüilo. Olho o relógio. Seis horas. À rua deserta escuto o farfalhar de meus passos sobre o chão, cadenciado passo, dança e música misturadas ao silêncio existente. Na mente nenhum pensamento ordenado ocorre. Trajeto feito todos os dias, hábito enraizado, é só seguir em frente.Em alguns dias a atenção volta-se para o andar, em outros para a respiração, há ainda aqueles dias em que se fixa nos cheiros, nos aromas das casas, nos lixos tombados, no latido do cão, e finalmente no gato fugindo sorrateiramente. Feito a pássaro livre em seu vôo matinal, ela muda rapidamente. O que determina essa atenção? Nenhuma escolha prévia. Nada. Somente o olhar e o sentir. Distância encantatória entre as coisas e o homem.

Foi numa dessas manhãs que sem motivo algum revivi a Dora Encantadora.

Era o nome de minha mãe. Ela passeava por este parque em dias de chuva e frio, sozinha colhia flores e o lugar parecia gostar da presença dela. Alguns achavam ela louca, outros deixavam-se encantar pela poesia, mais naquele Outono fatídico em 1895 me deixei encantar por tudo que já estava perdido. Encurtar a distancia entre o devaneio e a realidade.

Envolvida por esse encantamento nem percebi que,em voz alta, declamava um poema escrito por minha mãe poucos dias antes de sua morte. Morte estranha a sua. Seu corpo disforme foi encontrado coberto de musgos, liquéns e folhas das macaúbas. Pai não quis nem saber o acontecido e eu,uma menina, aceitei o silêncio que pairou sobre tudo. Mas não sou mais uma garotinha que só faz obedecer, decidi quenão era mais o momento de observar passivamente e desfalecendo cai sobre a relva verde que recobria aquela alameda. Neste instante ascendi aos céus e pude compreender o sentido de tudo aquilo.

Imagem - Sueli Aduan
Editor-  Sérgio Cajado

Léo Metálica- Kátia Mota- CajadOmatic- Sueli Aduan-

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