quinta-feira, 29 de abril de 2010

Curto um circuito

De tanto pensar, queimou os transistores do cérebro mas allás, não existem mais transistores e o miolo tem que ser trocado por um dignissimo circuito impresso feito com cabelinhos de ouro. Nada mais empolgante que acompanhar esta evolução e mais ainda fazer parte dela. So não entendo porque cargas d'agua dizem que

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Uma questão de harmonia

Houve tempo — sim, houve —em que me fiz duro e ameacei que não voltaria mais. Voltei. Fui o primeiro a chegar, mas não para ficar. Estava decidido ir-me embora. Não trouxe nada comigo, exceto a rede com que pesquei durante os últimos trinta anos que vivi beira mar. Pela janela do trem ainda avistei os companheiros, o barco e as redes sendo atiradas ao mar. Uma tristeza invadiu meu coração, apertei os lábios firmemente, uma lágrima rolou, mas eu era um homem, e, meu pai dizia que homens não choram. Como ele pôde ter se enganado tanto.

Estendi as mãos, e aceitei tranqüilamente o lenço que as mãos enrugadas de seu Orestes me ofereciam. Era o pescador mais velho da vila. Não ia mais para o mar. Silencioso, falava pouquíssimo e passava horas todos os dias na venda do Amauri olhando para a brisa sua velha conhecida. Sem dizer palavra desceu do trem e se foi. Segui meu caminho com a idéia clara de que adaptar-se a essa nova vida não seria fácil. Escolhi não pensar. Pernas no mundo, olhos no vazio.

O balançar dos trilhos me acalentou com um ritmo macio e suave, que sem perceber fechei os olhos, e infinitas imagens desfocadas das lembranças de felicidade da vida que vivi surgiram. Por fim, perdendo o controle de minha consciência, dobrei-me sobre o resplandecente mundo dos sonhos. Lá estava eu, jovem novamente. Os cabelos ao vento, a pele queimada de sol e a esperança de uma pesca farta em mais um dia que se iniciava. A lua ainda nos observava, e as estrelas brilhavam em um azul que devagar ia se desbotando em cor de neblina, manhã e maresia.

Fumo Ruim, como sempre distraído desembaraçando as linhas enroscadas na caixa de reparos. Trocávamos poucas palavras. No mais dizer era um óia o pulo deste baita à sua frente, ou a última moqueca que Joana de Altério havia preparado na festa de São Sebastião. A felicidade dava gozo ao meu coração. Falar pra que? Nem carecia. Queria chegar em casa com fartura de peixes e beijos. Afagar mansamente a barriga prenha de Helga, minha gringa, amor.

Despertei derrepente num vagão já vazio parado na estação. Desci e me deparei com o espectro da metrópole e suas montanhas de prédios apinhados de gente, suas avenidas como dragões infinitos, e me dei conta que nem Helga, nem filho, e nem nada. Em fuga do que não aconteceu. Como eu era feliz em esperança. Meu Deus!Se não apressar o passo não alcanço o ritmo desta gente. Cato as traias o papel com endereço, um nome para me levar adiante. Estava numa fria. Nunca pensei que isso fosse aquilo. Aquilo que por um momento achei que era bem melhor pra mim. Que baita choque! Senti-me até tonto naquele formigueiro. Ter de começar uma nova vida a partir do zero me afligia um pouco. Dentro, uma intuição me guiava. No fundo sabia haver algo reservado para mim. Eis me aqui, pensei olhando o papel e o número de uma casa grande e amarela. Vamos lá! Aceitar tranquilamente o que estiver reservado pra mim.

Pressionei o botão da campainha e nada aconteceu. Com o coração apertado, as mãos geladas e uma leve sensação de abandono, me preparava pra ir embora. Quando derrepente a porta se abriu, e um senhor de cabelos longos e passos lentos surgiu. Abriu um largo sorriso e me disse: ─ Adamastor! Mas que surpresa! Ora veja só, você, aqui! Você chegou agora? Venha, venha, vamos entrando, a casa é sua! A viagem foi boa? Olhei-o profundamente, e ainda que envolvido por aquele doce sorriso, disse: ─ Olha, meu caro, não gosto de ser um estraga-prazeres, por outro lado, sou um sujeito muito direto: Adamastor e eu somos gêmeos. Não sabia de minha existência? Essa minha pergunta, feita assim à queima roupa, não impediu que ele continuasse a sorrir, e mesmo com um ar surpreso disse:
─Um bom momento para nos conhecermos. Foi então que a oportunidade surgiu. Senti que poderia contar sem constrangimento minha história para aquele sujeito cheio de sorrisos. Eu sou o Otavio, disse estendendo-lhe a mão lentamente por cima do pequeno portão que nos separava. Adamastor soube que estou em situação bem difícil e me mandou procurá-lo. Na verdade perdi tudo que tinha de valor: minha mulher e meu barco. O barco afundou e eu não consegui salvá-la.

O sorriso desapareceu do rosto do homem. Abriu-me o portão olhando para o chão e disse:
─ Então vamos entrar. Lá dentro você me conta tudo tomando uma boa xícara de café. A propósito, meu nome é: ─ Lucas disse eu intenrrompendo-o. Ele sorriu novamente e disse, não não não, meu nome é Julio, Lucas é meu irmão gêmeo. Fiquei sem saber se aquilo era gozação, mas ele continuou:
─ Como vê, meu jovem, temos mais em comum do que você imagina. Também perdi a mulher que amava, mas isso já faz muito tempo, hoje guardo-a aqui, e pos a mão sobre o coração.

O velhinho me pareceu simpático embora mal o conhecesse. Adentramos sua casa avarandada onde se viam samambaias e rododendros de um vermelho impressionante. Passamos pelo saguão colonial e fomos para um jardim onde havia um banco sob uma frondosa primavera branca. Sentamo-nos e ele me ofereceu um mate delicioso. Então ele me olhou nos olhos e disse:─Sabe Otávio, percebi que gostou das minhas plantas, sinto que temos muita coisa incomum mesmo. É raro vir gente na minha casa sou um gostador de silêncio dizia meu pai. E ele estava certo, à tardinha gosto de sentar aqui olhar cada plantinha, as folhas das árvores com suas tonalidades diferentes, sentir o cheiro da terra molhada e, às vezes, quebrar o silêncio tocando minha gaita. Dei um pulo do banco, para surpresa dele que assustado arregalou os olhos, e por pouco não derrubo a xícara com o mate. Todo o meu gostar poderia se resumir em: pescar e tocar gaita.
Ainda perplexo com tamanha coincidência, não pensei duas vezes, tirei do casaco minha gaita, e naquela tarde como em nenhuma outra o som foi infinitamente reconfortante, e naqueles momentos de música, eu e Júlio nada falamos, porque o som nos unia e nos fazia conhecer cada detalhe de nossas histórias trágicas, como uma ópera. Continuei tocando minha gaita, e talvez por estar envolvido demais, não percebi a aproximação de um alguém, que me interrompeu me tirando do devaneio com um leve raspar de garganta:
─ Então, até que enfim você chegou Otávio! Vejo que já conheceu meu irmão Júlio, e não, não se preocupe com maiores explicações, a carta de Adamastor explicando sua situação chegou há dois dias atrás!

Constrangido, mas tranqüilo percebi que estava entre amigos. E certamente, como pressenti desde o princípio, havia algo ali reservado para mim. Lucas se aproximou lentamente fitando-me nos olhos com uma agradável tranqüilidade no rosto. Apertou minha mão em silêncio. Sacou do cachimbo no bolso do paletó, acendeu-o ainda em silêncio, mas com a atitude de quem ia dizer algo importante. Tirou uma primeira baforada, limpou a garganta e começou sua fala:
─ É, no mínimo, espantosa a semelhança de nossas histórias. Nós três carregamos na alma a dor de perdas insuportáveis. Cada um com sua circunstância, mas os três com o seu coração irremediavelmente ferido pela morte de alguém muito, muito querido. Digo irremediavelmente porque embora tenhamos encontrado algum motivo para continuar neste mundo, sempre teremos esta ferida a nos doer de quando em quando. No meu caso, já faz tanto tempo, que creio ter me viciado nesta dor que a ausência de Lucia me traz. Acho que não conseguiria mais ficar sem ela. Faz parte de minha existência.
Em você é uma dor recente. Uma ferida aberta. Mas você me parece capaz de conviver com ela. Assim como Julio e eu o fazemos.

Num rompante de confiança disse: ─ Saí com Helga ainda de madrugada, interrompi Lucas. Na noite anterior não ouvimos rádio nem vimos televisão, nada! Dormimos cedo e bem juntos como sempre. Na madrugada acordamos e saímos ainda escuro. Não sabíamos que teve tornado no mar alto. Ao sairmos com o barco percebi o mar agitado, mas mesmo assim não pensei em possibilidade de desgraça. Quando a primeira grande onda nos atingiu o barco mudou de direção e a segunda grande onda nos pegou de lado e nos emborcou. Foi tudo em questão de poucos segundos. Caí naquela escuridão sem ter nenhuma idéia de onde Helga teria caído. A minha direita, a minha esquerda, na frente, atrás? A consciência da tragédia chegou tão rápida quanto o barco virou. Sabia que era o fim para ela. Desde que perdera nosso bebê, naquele maldito aborto ela nunca mais foi a mesma. Acho que quando caiu, entregou-se aquela morte. Eu mergulhei inúmeras vezes tentando encontra-la, mas nada. Flutuei por horas a fio nas águas daquela baía. Meus cabelos dançavam líquidos e se embaraçavam com os dela, sem vida no fundo daquele mar profundo e azul. E seu corpo descia lentamente para um infinito de onde jamais retornaria, de minhas lágrimas fazia parte todo o oceano.

Mas estava ficando tarde e percebi que estava ainda ali olhando aqueles dois velhinhos me olharem com condescendência. Lucas pos a mão em meu ombro e disse: ─ Está com muita raiva de Deus? Desconcertei-me. Ele adivinhou meu pensamento. Sim-sim! Você adivinhou! Só não sabe o quanto o odeio! Respondi com voz meio rouca, meio fraca, estrangulada pelo quase choro que me veio. Engoli em seco o amargor da boca e pisquei seguidamente os olhos afastando o ardor das lágrimas que abortei.

─ Isto também vai passar me disse. Sem que você perceba, vai perdoá-Lo. Vai perceber que grande parte da humanidade sofre a perda de entes muito queridos. Você não é o único. A morte é necessária de alguma maneira que nós ainda não compreendemos, ou nos recusamos a compreender. Deus não mata. Acho que nos muda de lugar ou de forma, não sei bem. ─ Você vai acabar perdoando a Deus. Eu, um dia, aceitei tranquilamente o que ele me reservou.

Júlio, até então quieto, rompeu seu silêncio para completar tão bela fala. Acredito que perceberá ainda mais: ─ o que ele reservou é sempre o melhor, nós é que não enxergamos. E, naquela tarde ao som da gaita embriagados pela palavra divina, a idéia surgiu assim misteriosamente, feito um pássaro com seu belo canto. Descobrimos-nos músicos, era só uma questão de harmonia.

E Júlio ainda com um sorriso tranqüilo e sereno cantou ─ “Como pode um peixe vivo viver fora... Como poderei viver?” E animado bateu palmas que ecoaram como um brinde a vida.

Renato Ferreira, Youkai, Ermitão, Cristinasiqueira, Cajadomatic, Josy, Emilia, sueliaduan.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Aceitei tranqüilamente


Houve tempo — sim, houve —em que me fiz duro e ameacei que não voltaria mais. Voltei. Fui o primeiro a chegar, mas não para ficar. Estava decidido ir-me embora. Não trouxe nada comigo, exceto a rede com que pesquei durante os últimos trinta anos que vivi beira mar. Pela janela do trem ainda avistei os companheiros, o barco e as redes sendo atiradas ao mar. Uma tristeza invadiu meu coração, apertei os lábios firmemente, uma lágrima rolou, mas eu era um homem, e, meu pai dizia que homens não choram. Como ele pôde ter se enganado tanto. Estendi as mãos, e aceitei tranqüilamente

terça-feira, 13 de abril de 2010

Feito um rei.


Havia 46 macacos naquela árvore, mas somente um foi capaz pular para a arvore mais perto. Não era uma bananeira, mas uma jabuticabeira carregada. Ele olhou pro resto da macacada faminta sem entender porque eles não pulavam também praquele paraíso de jabuticaba.
Foi aí que ele viu

Muitas outras árvores semelhantes a essa. Macaco inteligente, não teve dúvidas: — era mesmo o paraíso. A bananeira uma sombra, apenas. Mas para pular não bastavam somente agilidade e fome. Era preciso sagacidade! Ele, macaco experiente que era, observou que seu instinto sempre falava mais alto, e que sim, tinha realmente escolhido a melhor árvore!

Olhou ao redor e viu que seus companheiros também começavam a saltar aqui e acolá, no entanto seu instinto de autopreservação o fazia olhar o todo em redor, entre as muitas folhas e galhos, os olhos rápidos erravam daqui pra ali a procurar algo que pudesse merecer um sinal de alerta para o resto do bando.

De galho em galho empoleirou-se no último. Feito um rei. O rei das jabuticabas. Dali seu olhar esperto percebia todo o movimento da macacada. Um verdadeiro banquete aquelas neguinhas brilhantes e cheirosas presas nos galhos. Desconfiado da fartura aguçou o faro, mordeu uma fruta, engoliu outra e cuspiu uma terceira. De olho na bananeira não muito longe dali, imaginou-se o rei da banana também, logo após ter terminado com as jabuticabas, certamente.

Foi quando reparou que as onças em baixo haviam ido procurar outro almoço que não macaco ao sugo e pensou: — é uma boa hora para pular a bananeira. Mas quis o destino que os outros macacos tivessem a mesma idéia, e em um tumulto indescritível, migraram para a bananeira em frações de segundos. O macaco muito puto da vida pensou então: — ou eles ou eu. E num impulso lançou-se em direção a bananeira como um raio, disposto a disputar o seu naco de bananas com a macacada em alvoroço. Foi uma gritaria danada. Uns pulavam em direção dos cachos de banana mais baixos e ficavam ali pendurados para grande desespero de nosso herói.

Com dor no coração o macaco resolveu voltar para suas jabuticabas. Preferia ser o rei das jabuticabas do que o plebeu das bananas. Então viu que as onças haviam voltado e a bananeira era baixa, não tinha o monte de galhos que provia proteção como à jabuticabeira. Com um enorme dó ele ficou ali vendo seus colegas serem puxados para as presas das onças. Não havia nada que pudesse fazer a não ser atirar jabuticabas nos olhos das onças. Elas não estavam gostando muito disso e rugiam enfezadas para ele. Derrepente, de cima da montanha surgiu imponente seu velho amigo King, King Kong o maior macaco do pedaço. As onças arregalaram os olhos ao verem tamanho macacão. E ele disse:

—Calma macacada vou dar um jeito nos gatinhos, e foi aquela confusão : — as onças correram,os macacos gritavam ainda mais numa mistura de alívio e alegria.

Derrepente o silêncio tomou conta de tudo. Do fundo da mata surgia o som melódico do azulão e o sol como testemunha. O olhar do nosso herói pousou lentamente sobre a copa das árvores. De onde estava podia avistar um horizonte longínquo, o céu azul com nuvens brancas, as folhas brilhando ao sol e o silêncio relativo de uma breve paz.

Josy, Renato Ferreira, cristinasiqueira, Cajad0matic, sueliaduan.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Estado de fauna

Haviam 46 macacos naquela arvore mas somente um foi capaz pular para a arvore mais perto. Não era uma bananeira mas uma jaboticabeira carregada. Ele olhou pro resto da macacada faminta sem entender porque eles não pulavam tambem praquele paraiso de jaboticabas.
Foi aí que ele viu

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Somos feitos assim


Paf!
Mamãe me deu um sopapo, bem que eu mereci. Claro que fiquei com raiva, um tapão na nuca nunca é bem vindo. Mas a culpa não foi bem minha. Nao quebrei o braço do João, juro, ele se quebrou sozinho, já disse que nao faço essas coisas poxa, porque não acredita em mim? Sei que as pessoas a meu redor sempre se machucam misteriosamente, menos na minha familia, talvez sejam imunes a mim, nao sei por que, afinal nao sou esse tipo de pessoa.

Lembrei-me do episódio poucos anos mais tarde no ônibus que me levava de Vila Mariana a Penha. Lento e monótono o ar viciado por tanta gente respirando ali, o silêncio de tédio me deixavam de saco cheio. Eu vinha sentado na janela com um estranho ao meu lado. Não bastando o calor e o abafamento o sujeito, meio grande, meio gordo, dormia e esparramava-se no banco contribuindo para meu desconforto.

Foi quando num gesto brusco, para melhor me acomodar, esbarrei em seu braço. O sujeito acordou. Olhamo-nos rapidamente, uma fração de segundos e foi o que bastou. Sorrindo me disse:
- Mas não é possível, não pode ser... Estou te reconhecendo! Você não é...? Você era vizinho da tia Alice, na rua Mandu..., não era? Meio aturdido com a pergunta, ainda entediado e sem nenhum entusiasmo, respondi:
- Sim, morava ao lado dela. Mas, não estou conseguindo me lembrar...
- Sou o Laércio, interrompeu-me. Filho da Jandira que morava na mesma vilinha de casas, lá na Mandú, lembra?
- Ah, agora estou me lembrando! Você e eu costumávamos brincar lá na rua, não é?
- Nossa! Faz muito tempo. Não voltei mais lá desde que mudamos.
- Mas, como vai a vida?
- A vida?! Ah! A vida.É meio complicado... Não é no momento do jeito que eu gostaria, mas dá pra ser feliz de vez em quando. Quando meu time ganha, quando entra um dinheiro a mais, disse brincando.
- Mas, olhei para ele com mais atenção, você está muito diferente... esta barba, os cabelos longos... como me reconheceu? Tenho a mesma cara que tinha quando criança?
- É teu olho. Ele olha do mesmo jeito de quando eramos guris descabelados apertando campainhas e correndo pela vila.
- Bom vc não da pra perder com esse cabelo vermelho que deixava as velhotas da rua em desespero, hahaha, fomos mesmo moleques imperdoáveis hein?
- Acho que fomos mesmo, mas a vida se vinga, tenho dois filhos que me deixam de cabelo em pé
- Não brinca, tenho dois moleques tambem, mas são bem tranquilos um pensa que é o papagaio do platão e o outro a vitrola do Juca Kifuri.
- Uau, um filósofo e um esportista...
- Nada, dois tagarelas, mas tranquilos, acho até que nós fomos bem piores, disse Laercio.
- Não sei com respeito a teus filhos. Mas quanto aos meus, com certeza, eu fui bem pior. Sumia para ir nadar no lago azul e só aparecia a noite.
- Lembro bem disso, disse Laercio, uma vez você tomou várias chineladas nas pernas. Tua mãe estava possessa.
- Coitada, respondi, é que de vez em quando morria algum garoto afogado por lá... dona Gloria tremia de medo.

De repente voltei à minha própria infância, ouvindo (sem querer, juro!) o encontro casual desses dois homens feitos, com suas reviravoltas de vida, alguns sonhos de criança concretizados, muitos outros não e ali, na minha frente, como num filme, revivi a promessa feita e o sonho que não se realizou, pelo menos não para mim.

Será que ele se realizará ou será deixado de lado aos poucos substituido por outro sonho? Com o passar dos anos não temos mais sonhos.

Só desejos.

Uma obra escrita por Sergio Cajado, Youkai, Sueli Aduan, Renato Ferreira, Tina & Nalucky

terça-feira, 6 de abril de 2010

Porque eu sou assim?

Paf!
Mamãe me deu um sopapo, bem que eu mereci. Claro que fiquei com raiva, um tapão na nuca nunca é bem vindo. Mas a culpa não foi bem minha.

terça-feira, 30 de março de 2010

Jaime Córdoba: " Em busca do som e do silêncio”



“Isolados experimentalmente de todo ruído externo,
escutamos no mínimo o som grave da nossa pulsação
sanguínea e o agudo do nosso sistema nervoso”.
John Cage

Era um sujeito de poucas palavras, desses que vez ou outra aparecem por aqui e só nos cabe o silêncio um impecável atendimento. Não posso dizer que não ficava intrigada toda vez que o via descendo as Era um sujeito de poucas palavras, desses que vez ou outra aparecem por aqui e só nos cabe escadas. Arrastava um pouco a perna o que aumentava a áurea de mistério que envolvia sua vida, além da minha própria desconfiança. E, a bem da verdade, a desconfiança não era só minha, não. De hábitos estranhos saía de manhãzinha levando uma pequena maleta preta e só retornava a noite. Exatamente no momento em que nosso hóspede chegava eu sempre me encontrava sozinha na portaria.
Foi quando numa dessas noites e com um céu estranhamente estrelado, a lua indo alto, que percebi: — não voltou com a maleta, mas ele também percebeu o meu espanto.

Veio em minha direção e disse num só fôlego:
- Bondosa senhora, perdoe minha entrada assim sem o apresentar-se natural de pessoas que hão de se conhecer, mas não o fazem por timidez ou falta de tempo. Noto seu espanto ao ver-me chegar sem minha maleta que parece ser parte de minha identidade. Desta maneira gostaria de aproveitar a ocasião e me apresentar, Jaime Córdoba a seu inteiro dispor.
Baqueada pelo inesperado colóquio balbuciei meu nome meio sem entender.
- Ola, sou a Sueli.
- Dona Sueli, desculpe o mau jeito, essa abrupta introdução de minha pessoa nos recônditos de seus pensamentos, é um prazer conhece-la. Gostaria que pudesse lhe confessar que há muito havia notado sua presença indagativa que imagino ter a ver com minha maleta, um tanto surrada, mas de inestimável utilidade para minha profissão, mas o fato é que perdi a tal maleta e gostaria de saber se a senhora não a teria visto.

Diante tanta polidez reconheci meu falso julgamento a respeito do pobre homem que me parecia correto e honesto apesar de coxo e soturno.
- Não vi, disse eu, talvez o senhor tenha deixado em seu trabalho, seria possível?
- Não, não seria, disse ele, meu trabalho não permite que tenha um lugar fixo.

Já me mordendo de curiosidade, quase pergunto que trabalho era esse, mas ele se adiantou.
- Sabe, sou técnico de som, e trabalho para uma companhia de cinema. Busco sons para posterior sonoplastia e dentro da maleta está uma Nagra de 40.000 dólares que uso para coletar sons deste mundo.
- Entendo sua preocupação, disse eu, especialmente hoje numa noite em que as estrelas estão tão lindas que parecem sussurrar uma canção.

Ele deu um passo para trás e disse:
- Em noites assim, por incrível que pareça, paira um imenso silêncio, nas ruas, nas cidades, no mundo. Como se as estrelas cantassem uma bela canção aos nossos ouvidos insensíveis. Mas como apurar os ouvidos e observar é característica de meu trabalho, aprendi que há sempre som dentro do silêncio, e, é uma pena mesmo a maleta ter desaparecido. Poderíamos caminhar por estas alamedas desertas, e quem sabe, a senhora ficasse perplexa com os sons que vem da noite, da lua e das estrelas.
- Conheço os sons das estrelas, elas sempre cantam sua canção para mim, Sr.Jaime
- Tens admirável bom senso minha senhora, quisera ter uma audição assim tão perceptiva.
- Mas não é fácil meu senhor, isso exige de nós um tempo do ouvir. Imagino, por conta do seu próprio trabalho, que sabe o quanto valorizamos a imagem. E, assim nem nos damos conta da necessidade do silêncio para poder ouvir. Ouvir tanto a si quanto os sussurros dos ventos, onde caminham as vozes das pessoas queridas, a alegrar o espaço amplo de nossos corações.

-Minha senhora, que senso tem para o som até mesmo o emitido pelo corpo em movimento de vida das pessoas ao seu redor! Qual sua profissão? Tem certeza que não esta na área errada poderia de ser melhor do que a mim em minha empreitada pelos ecos desse mundo.
Desculpe-me, senhor, estava tão concentrada na procura de um objeto valiosíssimo de um outro hóspede, que nem escutei o seu nome. Com vê, meus ouvidos não são tão apurados assim, ou melhor, são, mas não para todas as coisas. E até hoje não compreendi muito bem isso, penso que é coisa de família. Meu avô tinha um excelente ouvido para a música. Era marceneiro de mão cheia, aliás, dizia que o serrote na madeira emitia verdadeiros acordes. Com ele aprendi que, às vezes, uma coisa não tem nada a ver com a outra, que nem sempre a imagem diz o que lemos, e essas coisinhas aparentemente banais, mas que carregam um grande significado.

Mas agora era Jaime quem não ouvia mais. Não lhe fora fácil se apresentar, dizer seu nome. Dizer seu nome a quem? Ao vento?
Sueli estava perdida em seus pensamentos e na procura do objeto precioso, a Nagra do Sr. Jaime, que sequer ouviu o novo hóspede apresentar-se.

As estrelas ainda brilhavam num céu estranho, a lua ainda mais no alto, mas dentro, no coração de Jaime, ainda havia uma preocupação maior que não permitia que se entregasse a essa nova pessoa, tão exótica quanto ele. E não conseguia esconder a aflição de ter perdido seu instrumento de trabalho e suas mãos mostravam, pelo tremor insistente, seu nervosismo; o que fez com que Sueli se desligasse por um momento dos seus afazeres e, lendo a face do hóspede, perguntou:
-O que é mesmo que disse levar na maleta?
-Um Nagra, é um gravador poderosíssimo que capta com qualidade sons quase imperceptíveis ao ouvido humano.
-Puxa, que interessante, e você nunca pensou em usá-lo para fazer escutas, de conversas alheias e que poderiam ser interessantes de se ouvir em certos momentos de solidão?
-Na verdade, já fiz isso uma vez, mas não tenho esse costume, só uso com pessoas que me despertam o interesse. Uma vez, por descuido, acabei gravando uma conversa sua e, por acaso, ouvi que comentava sobre mim. Que eu era reservado, calado e, se não me falha a memória, intimidador. Gostaria de desfazer essa impressão. A gente poderia um dia desses tomar alguma coisa.
-Estou muito ocupada, além disso, sou casada e tenho uma criança.
-Não! Tem certeza disso? Estou quase certo de que ouvi o contrário. - Talvez seu Nagra
tenha ficado com defeito.
- Pouco provável. Mas eu estava pensando num sorvete. A senhora não gosta de sorvetes?
Adoro Sr.Jaime, ótima idéia. E quem sabe, ao sabor de um delicioso sorvete, eu possa desfazer esse equívoco, já que a probabilidade de seu Nagra ter dado defeito é inexistente.
-Vai rir muito com o que vou revelar. Não se espante não, não chega a ser demência. Mas é muito bom vê-lo sorrir. A verdade, é que tenho uma imensa paixão por livros. E leio alguns trechos em voz alta. O que gravou foi uma desses maravilhosos momentos. Talvez insanos. É uma maneira que encontrei de pertencimento à obra. No silêncio do meu quarto, ouvindo minha própria voz é como se a dor, a alegria, a descoberta dos personagens fossem meus. Outras vezes, fico em silêncio tentando enxergar o personagem: — seu rosto, seus olhos, sua boca. Aprendi com meu avô a importância de ouvir o silêncio para se criar a imagem perfeita.
Mas eu fico aqui, falando quando deveria estar ouvindo. Penso que tem muito a ensinar Sr.Jaime Cor... Desculpe-me não quero ser indelicada, mas tive uma leve sensação de que quando se apresentou disse mais um outro nome. Cajado seria ou me enganei...?

- Córdoba minha cara, a seu dispor. Curioso, conheci um Cajado há algum tempo, era um sujeito taciturno, meio coxo, dava a impressão de estar sempre tentando entender coisas que não lhe eram permitidas entender, não sei que lhe sucedeu, gostava dele, era uma dessas pessoas que a gente nunca esquece, mas que parece esquecer da gente.
- Tem muita gente assim senhor Córdoba.
- Jaime
-Sim, Jaime, por favor, não me chame de senhora, parece que esta falando com minha avó
- Com prazer Sueli, veja, somos seis bilhões de habitantes no planeta agora, muitas pessoas desaparecem neste turbilhão de gente
- Entendo, também conheci um Cajado, não sei se era coxo, mas era um bom pen pal, um amigo de internet que afinava bem com minhas idéias. Ainda somos amigos, vou perguntar a ele se ha algum coxo em sua família.
-Pois e, com tantas pessoas nesse mundo será possível que conhecemos o mesmo Cajado, Jaime? Estou tentada a crer que sim. Muita coincidência, pois esse meu amigo também tem essa característica, tão rara nos dias de hoje: — o de espantar-se com as coisas, de querer entendê-las. E apesar de conhecê-lo muito pouco, o fato de nossas idéias se afinarem, me dá essa tranqüilidade em falar dele a você. Seria ótimo não, se fosse o mesmo e, ainda, de quebra gostasse de sorvete. Sairíamos os três pelas alamedas, em busca de sorveterias.
Falaríamos da vida, do acaso, do som, do silêncio, da imagem, da amizade, do querer, e em ser quem se é. E pode ser que você ache o seu Nagra! Aí tudo passaria a não ser coincidência.
- Sim, vamos torcer que isso aconteça. Mas deixa esses Cajados pra lá. Vamos tomar nosso sorvete.
- Claro! Vamos lá.

E assim fomos pela alameda sob a luz das estrelas rumo ao sorvete de flocos.

Sergio Cajado, Youkai, Paulo Marcello, Tem um Cabelo na Minha Sopa, Sueli Aduan

domingo, 28 de março de 2010

Domo Arigato Gozaimasu

- O que vc faz com sua boca?
- Eu cuspo e você?
- Bom, eu falo....
- Mas fala bastante he?
- Sim, mas so quando necessario
- Domo Arigato Gozaimasu
- Que que é isso que vc falou?
- Eu te disse obrigado
- Porque?
- Porque você, sendo um trovador de poesias etéreas, dá um novo sentido as coisas que eu as vezes não percebo...
- E porque você cospe?
- Porque sou um Gourmet que tenho de saciar minhas papilas gustativas deveras insaciáveis, e as vezes me deparo com sabores que não são agradáveis...
- Este é o destino de seres sensiveis como nós, falar e cuspir as vezes se confundem no lapso do tempo infinito
- Sim, falar e cuspir são coisas que saem de dentro
- Ha talvez mais coisas que saem de dentro...
- Por exemplo?
- Hum... um filho... Pérolas, saem de dentro.
- Sim, um filho... a continuidade de nós e nossos genes, que vem atravessando gerações em busca da imortalidade...
- O grito também sai de nós, né? Mas ele vem da garganta ou da alma?
- O grito vem da garganta! Da alma vem o motivo de gritar...
- O porque gritar e não agir?
- Isso é pessoal, mais geralmente porque quando você age, dói mais do que apenas entrar em panico.
- Hehe isso é engraçado. Aprofunde esse argumento.
- Pelo meu conhecimento gritar é se expressar, não exatamente fugir, mas achar que é síndrome de panico é no mínimo original!
- Todo mundo que grita está de certa forma em panico!
- Será? Ou voce quer que assim seja porque voce nunca grita?
- Me diga uma única pessoa que resolveu agir gritando e se deu bem na vida?
- Ora, os samurais! Eles não gritavam antes de agir com o sabre? Ou aquele grito nada representava?
- Mesmo assim eles as vezes perdiam pros ninjas! Sabe como é, o silencio da ação gera alguma vantagem, os bons assassinos que os digam e que digam todos os que usam da sabedoria da palavra para suas ações, quer seja no grito, às vezes necessário, quer num sussurro que nos chega aos ouvidos e nos leva à loucura do fio da espada!
- Mas nisso tudo, o que vale mais, a ação do sabre ou a teoria da palavra?
- Tudo depende da situação, ambos são úteis, em momentos adequados.
- Então, quer o homem caminhe na paz de seus dias ou na luta de suas guerras sempre terá uma escolha a fazer. E de seu interior, na criação de sua palavra que nunca cala, que insiste em soltar-se das profundezas de seu âmago.
- Somos assim, seres que expõe o que tem dentro.
- Sim somos assim... só que preferia mais ser um honrado samurai que um ninja sorrateiro
- Do que vc esta falando?
- Você disse que as vezes os ninjas batem os samurais..
- Não, foi vc que disse isso.
- Foi?
- Foi
- Hum, de qualquer maneira nada pode fazerv um samurai com um canivete contra um ninja com um sabre.
- Mas porque?
- Porque o samurai vem carregado da sapiência dos antigos, onde mais valia a honra do que qualquer conceito que hoje vigore.
- Como assim?
- Sabe que tua força mora dentro das sabedorias das gerações em servidão e vigilancia constante, sua gloria em vida era morrer com honra. Então canivetes podem ser mais mortais do que qualquer sabre carregado pelo oponente, uma vez que cada golpe desferido por um samurai emana de sua afiada crença em seu destino, nada teme em face dos tormentos.
- Até parecem que não são humanos! Há entre eles alguns onde essa definição não se encaixa.
- Por exemplo?
- Itto Ogami por exemplo e existem outros alem dele.
- Mesmo? e entre os ninjas? Não existe alguem que se compare?
- Logicamente que existe, mas ninjas ao contrário dos samurais são sombras, não brasas, são poeira, não rocha, eles passam invisiveis e despercebidos. Sua vida é uma camuflagem permanente e seus nomes nada mais que facas em costas anonimas... com graça e medo movemo-nos sobre esse fio da lâmina.
- Seres engraçados que somos, nomeadores de coisas que saem de dentro que vivem fora e retornam de onde tudo parece mover-se.
- Mas porque agem desta maneira?
- Porque são sábios...
- Sábios como nós?
- Sábios como o tempo.
- Mas você então deve ser samurai!
- O que tenho nos bolsos são só três pedrinhas. Cada uma delas me lembra do que sou a cada dia.
- Mas você é samurai ou não?
- Se sou samurai ou não, isso não importa mas não sou digno de ser um sábio...
- E que te faz lembrar essas três pedrinhas?
- Lembram-me que posso ser duro, mas que também viro pó; que posso ser precioso ou não; que no meu caminho muitas delas podem existir e humildemente as supero, uma a uma. As tres que carrego possuem nomes, a primeira chamo de Ying, a segunda de Yang e a terceira de Devir. Mas os nomes não são importantes e sim seu significado.
- Eu tenho dois rolinhos de papel no bolso. Um eu chamo de Kien, a força do criativo ou outro eu nunca abri e não tem nome.
- Porque não tem nome?
- O primeiro contem o sentido de minha existencia e o segundo é meu futuro
- Quer dizer que vc nunca abrirá o segundo rolinho?
- Ele se abrirá sozinho
- E se vc o perder?
- Isso não importa. E mesmo que alguém o encontre, coloque em seu bolso nada disso ira alterar o que de antemão está escrito nas sílabas invisíveis do amanhã, ele é apenas simbólico, um lembrete de que no tear de nossas vidas, não há pontas soltas, todos os fios estão entremeados e revestidos de significados. O futuro será escrito com as penas da Fenix, o futuro será permeado pelo fogo da destruição e da reconstrução. Renovação constante que não cabe a um homem tentar controlar. Somente podemos viver. Viver e amar. Amar a chuva que caí e o fruto que nasce. O riso, o choro, a dor e a morte. Mas acima de tudo a liberdade de podermos dizer.
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quinta-feira, 25 de março de 2010

Nosso hóspede


Era um sujeito de poucas palavras, desses que vez ou outra aparecem por aqui e só nos cabe o silêncio e um impecável atendimento. Não posso dizer que não ficava intrigada toda vez que o via descendo as escadas. Arrastava um pouco a perna o que aumentava a áurea de mistério que envolvia sua vida, além da minha própria desconfiança. E, a bem da verdade, a desconfiança não era só minha, não. De hábitos estranhos saía de manhãzinha levando uma pequena maleta preta e só retornava a noite. Exatamente no momento em que nosso hóspede chegava eu sempre me encontrava sozinha na portaria.
Foi quando numa dessas noites e com um céu estranhamente estrelado, a lua indo alto, que percebi: — não voltou com a maleta, mas ele também percebeu o meu espanto.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Kuchi ni suru

Mover
- O que vc faz com sua boca?
- Eu cuspo e você?
- Bom, eu falo....
- Mas fala bastante he?
- Sim, mas so quando necessario
- Domo Arigato Gozaimasu
- que que é isso que vc falou?
- eu te disse obrigado
- Porque?

quarta-feira, 17 de março de 2010

É só um café. Será?

De perto, ninguém é normal
Às vezes, segue em linha reta
A vida, que é meu bem, meu mal
No mais, as ramblas do planeta
Caetano Veloso

É que foi acontecendo devagar dia após dias, eu mesma no começo não percebi. Sabe quando se bebe água sem muita sede só porque sabemos que é preciso. Bebe-se devagar saboreando cada gole lentamente. É talvez seja isso. Devagar eu fui saboreando esse cansaço. Cansaço de sair da cama todas as manhãs, cansaço de falar até as coisas mais banais.
_ Bom Dia, Lucinha você já trouxe os pães? Ah! Que ótimo. Pão doce? Gosto tanto.
Também poderia não dizer nada. Calar-me, ou simplesmente dizer:
_Lucinha, hoje, teremos convidados para o jantar. Faça algo diferente.
E se ela coloca um laxante em meu suco? Ou até algo mais forte só de raiva. Acontece.
Só eu para pensar isso. Será? Em algum momento da vida de cada um deve ter ocorrido esse tipo de pensamento.

E, se eu acordasse um dia e a Lucinha tivesse se adiantado e preparado um mega café da manhã com croissants folhados, geleias frescas, coalhada com hortelã, torta holandesa e um expresso ficaria talvez desconfiada. Seria talvez a hora de pedir um aumento ou avisar que ia viajar pra ver a avó doente...de onde vem estes pensamentos nefandos que desconheço a natureza? Não sou assim, mas algo dentro de mim insiste em pensar desta maneira. Talvez o lado negro da força como diria o Dart Vader. Mesmo qdo dou uma esmola uma voz interior me acusa de ser auto indulgente, de satisfazer minha vaidade ou necessidade de descarga de culpa e uma lista interminavel de decretos internos os quais em sã consciencia não concordo absolutamente.

Quem é que consegue viver sobre tamanha pressão? Escolher o bom mocismo ao invés da liberdade de pensar e agir. Condutas pré-fabricadas. Tenho inveja da Lucinha, envenenar a própria patroa, é preciso coragem. É que ela não segue os padrões de comportamento ditos adequados às empregadas, e, é por isso que a escolhi. Mas não nego o risco que corro por esse meu capricho: “piso na bola”, uma vez só, e ela queima minha camisa preferida ou mata uma de minhas orquídeas de estimação. Uma vez chegou a colocar amendoim ralado na cobertura do meu sorvete, sabe que sou alérgica, no fim disse ao medico: foi um acidente, mas sei que foi proposital.

Por que tal atitude? O que fiz a ela naquela ocasião? Hum! Lembrei-me, eu tinha deixado meu sapato em cima do seu travesseiro. Parece que ela não curtiu. Isso é paranóia minha? Puxa, foi distração. Fico pensando: não seria o caso de dispensar a Lucinha? Evitar num futuro, pelo jeito, bem próximo maiores problemas ou ainda procurar aquele terapeuta. Qual era o nome dele? Puxa, ando muito distraída mesmo. Lembro-me que era bigodudo e tinha uma idéia bastante interessante sobre viver e retornar.

Acho que vou procurá-lo assim que tiver tempo. Eu realmente amo a Lucinha, mas pela minha própria segurança devo tomar uma ou duas precauções. Terrível isso, mesmo sabendo dos problemas que ela me causa, não consigo deixar de me divertir pensando sobre o que ela fez, e imaginando o que será que ela fará amanhã. E se eu seduzisse seu namorado? O que será que faria? Boa idéia, Isso vai ser muito interessante. Será? Já não é o bastante todo esse equívoco

E quero imediatamente fazer tantas outras coisas. Mas aquele copo de água, dele eu continuo bebendo, mesmo já saciada, mesmo farta dos goles de cansaço que descem lentamente, arrastadamente pela garganta, e afinal já não consigo fazer nada imediatamente. E talvez nem depois. E se eu olhar pela fresta da porta, tão cedo, e só a ausência da Lucinha me encarar? E afinal eu descobrir que no fundo daquele copo d’água havia um vazio completo, e que dele eu bebi

E afinal eu sair pela porta, sem pensar, e ao abri-la, como num passe de mágica, tudo aconteceu. À mesa estava posta, o cheiro de assado me deu um peteleco no estomago, as flores frescas no aparador e a casa vazia.
Ligeira, estupefata procurei pela Lucinha em todos os cantos e vi que ela havia desaparecido.Agora sem estar ela estava. E a água insípida, inodora, como deve ser a água e a Lucinha invisível como deve ser.

Mas e se ela resolve voltar. Só eu para pensar isso. Será?

CajadOmatic, Youkai, Neto Cruz, cristinasiqueira, sueliaduan

quinta-feira, 11 de março de 2010

Só eu para pensar isso.Será?


É que foi acontecendo devagar dia após dias, eu mesma no começo não percebi. Sabe quando se bebe água sem muita sede só porque sabemos que é preciso. Bebe-se devagar saboreando cada gole lentamente. É talvez seja isso. Devagar eu fui saboreando esse cansaço. Cansaço de sair da cama todas as manhãs, cansaço de falar até as coisas mais banais.
_ Bom Dia, Lucinha você já trouxe os pães? Ah! Que ótimo. Pão doce? Gosto tanto.
Também poderia não dizer nada. Calar-me, ou simplesmente dizer:
_Lucinha, hoje, teremos convidados para o jantar. Faça algo diferente.
E se ela coloca um laxante em meu suco? Ou até algo mais forte só de raiva. Acontece.
Só eu para pensar isso. Será? Em algum momento da vida de cada um deve ter ocorrido esse tipo de pensamento.
E,

terça-feira, 9 de março de 2010

cavaleiros da Linguagem

Rumavam, como todos rumam, a uma direção imprecisa onde os sinonomos e os antonimos viviam em desacordos harmoniosos, esperavam em desconforto nos aeroportos e gozavam férias forçadas quando as praias estavão lotadas. Mas preservavam a lingua a qualquer custo, minha lingua é minha patria, sem anglicismos ou galicismos latinizando inclusive de tempos em tempos expressõess a serem gravadas no tempo.

Non ducor, duco, Não sou conduzido, conduzo. Por florestas de sinonimos e montanhas de adjetivos atravessavam os hiatos esquivando-se de cacófonos e gírias. Perguntavam-se se o idioma portugues havia nascido na cidade do Porto ou num porto efêmero de alguma distante colonia pós barba. Mesmo os predicativos do sujeito não encontravam objetos que fossem diretos o suficiente para verbalizar a onomatopeia de espanto ante a interrogação de genero, numero e grau. E, seguem de espanto em espanto nessa floresta de significados e significantes. Constante busca do sujeito na construção do corpo e do espaço. Uma teia feita de sons e palavras, coisas e objetos, de dores e amores.

Desejo do verbo de substantizar os adjetivos no ritmo das silabas sibilantes. Mesocleses e prosopopeias em estado de alerta, predicativos deste sujeito mal-barbado a espreita num dos cantos de uma sentença com a oração batendo rapida. Tudo num so suspiro de interjeição. Mas a virgula não é um ponto final e, não sendo o final me reconheço como sujeito da oração, um sujeito pleno na razão da sua ação, não oculto ou indeterminado e que, portanto, não é conduzido, mas conduz.

E de tudo que há terei na face da lua meus olhos cravados, ponto distante e brilho para meu espanto: ah! As palavras, a forma e o final feliz.

domingo, 7 de março de 2010

Os cavaleiros da linguagem

Non Ducor Duco

Rumavam, como todos rumam, a uma direção imprecisa onde os sinonomos e os antonimos viviam em desacordos harmoniosos, esperavam em desconforto nos aeroportos e gozavam férias forçadas quando as praias estavão lotadas. Mas preservavam a lingua a qualquer custo, minha lingua é minha patria, sem anglicismos ou galicismos latinizando inclusive de tempos em tempos expressõess a serem gravadas no tempo, Non ducor, duco, Não sou conduzido, conduzo. Por florestas de sinonimos e montanhas de adjetivos atravessavam os hiatos esquivando-se de cacófonos e gírias. Perguntavam-se se o idioma portugues havia nascido na cidade do Porto ou num porto efêmero de alguma distante colonia pós barba. Mesmo os predicativos do sujeito não encontravam objetos que fossem diretos o suficiente para verbalizar a onomatopeia de espanto ante a interrogação de genero, numero e grau.
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sexta-feira, 5 de março de 2010

Os potes dourados


Havia sobre a relva verde um pote enferrujado, esquecido dum tempo mágico por entes de outros tempos diferentes, daqueles onde sábios podiam datilografar sem olhar o teclado, beber tubaina em copos dourados sem que comentassem distraidos que um menino dormia na rua sem travesseiro, recostado num muro, querendo um lençol para se cobrir e segurar uma mão bondosa em caso de tristeza profunda.

Mergulhou então no pote enferrujado e dalí saiu um homem dourado pondo fim a seu tormento que era viver sem magia. Endireitou o corpo e apontou a lua fazendo nascer estrelas de açucar. Nuvens passavam sobre ele fazendo chover confeitos coloridos que encheram a relva verde de cor. La onde escondiam-se pererecas alegres e gulosas, formigas trabalhadoras faziam os sonhos florescerem no olhar.

Começou então a mergulhar como as sereias, perdendo o seu dourado e tornando-se plumbeo, frio. Foi então que viu na superficie pequenos e belos potes mágicos guardados por gnomos, os mestres da terra despedindo-se das sereias imaginarias. Sucumbiu aos potes cujo aroma lembrava nenufares senis e foi ai que descobriu que poderia novamente vestir-se do ouro e brilhar na águas silenciosas.

escrito por... todos nós :o)
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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Salve-se quem puder! II



Carissimos colaboradores do Tempus Fugit

O Blog passara por uma faxina, troca de encanamentos e pintura. Salvem os textos que lhes forem caros pois em momentos como esse sempre some alguma coisa. Mas tem um tempinho ainda portanto nesta hora crucial, estamos todos abertos a sugestões e confidencialidades a se tornarem publicas. Toda sugestão será abençoada pelo Dalai Lama e pelo Padim Padre Cicero alem da equipe passiva e ativa, que na verdade somos todos nós, amantes das letras que pululam tresloucadas pelos conduites de nossas mentes e vem se postar graciosamente neste Blog.

beijos a todos

PS. Vamos aproveitar este hiato pra sugerir novas experiencias., por exemplo, na proxima postagem sugiro a gente pode fazer um teste de escrever no maximo 5 palavras sem abrir paragrafo e ver o que acontece com o bloco (uh!?!?!?) quem topa? (depois na outra a gente volta ao de sempre... ou cria novos caminhos!)

Momento sublime

-
Desço a rua tranqüilo. Olho o relógio. Seis horas. À rua deserta escuto o farfalhar de meus passos sobre o chão, cadenciado passo, dança e música misturadas ao silêncio existente. Na mente nenhum pensamento ordenado ocorre. Trajeto feito todos os dias, hábito enraizado, é só seguir em frente.Em alguns dias a atenção volta-se para o andar, em outros para a respiração, há ainda aqueles dias em que se fixa nos cheiros, nos aromas das casas, nos lixos tombados, no latido do cão, e finalmente no gato fugindo sorrateiramente. Feito a pássaro livre em seu vôo matinal, ela muda rapidamente. O que determina essa atenção? Nenhuma escolha prévia. Nada. Somente o olhar e o sentir. Distância encantatória entre as coisas e o homem.

Foi numa dessas manhãs que sem motivo algum revivi a Dora Encantadora.

Era o nome de minha mãe. Ela passeava por este parque em dias de chuva e frio, sozinha colhia flores e o lugar parecia gostar da presença dela. Alguns achavam ela louca, outros deixavam-se encantar pela poesia, mais naquele Outono fatídico em 1895 me deixei encantar por tudo que já estava perdido. Encurtar a distancia entre o devaneio e a realidade.

Envolvida por esse encantamento nem percebi que,em voz alta, declamava um poema escrito por minha mãe poucos dias antes de sua morte. Morte estranha a sua. Seu corpo disforme foi encontrado coberto de musgos, liquéns e folhas das macaúbas. Pai não quis nem saber o acontecido e eu,uma menina, aceitei o silêncio que pairou sobre tudo. Mas não sou mais uma garotinha que só faz obedecer, decidi quenão era mais o momento de observar passivamente e desfalecendo cai sobre a relva verde que recobria aquela alameda. Neste instante ascendi aos céus e pude compreender o sentido de tudo aquilo.

Imagem - Sueli Aduan
Editor-  Sérgio Cajado

Léo Metálica- Kátia Mota- CajadOmatic- Sueli Aduan-

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Cadenciado passo

s

Desço a rua tranqüilo. Olho o relógio. Seis horas. À rua deserta escuto o farfalhar de meus passos sobre o chão, cadenciado passo, dança e música misturadas ao silêncio existente. Na mente nenhum pensamento ordenado ocorre. Trajeto feito todos os dias, hábito enraizado, é só seguir em frente.
Em alguns dias a atenção volta-se para o andar, em outros para a respiração, há ainda aqueles dias em que se fixa nos cheiros, nos aromas das casas, nos lixos tombados, no latido do cão, e finalmente no gato fugindo sorrateiramente.
Feito a pássaro livre em seu vôo matinal, ela muda rapidamente. O que determina essa atenção? Nenhuma escolha prévia. Nada.
Somente o olhar e o sentir. Distância encantatória entre as coisas e o homem.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Tempus Fugit

Saciada a sua ira e satisfeito o seu ódio Beatriz observava seus pés e a chuva mansa que caia. Os pingos na vidraça do quarto era o único som existente. A mudança de humor, a observância desses pés e os movimentos de seu corpo era tudo o que tinha.
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Figura delicada, boca perfeita e usando um elegante chapéu, Camille a esperou de braços abertos. A lua iluminava-lhe o semblante e ela sorria. Um sorriso de boneca ou da boca que se alarga e toma conta do rosto inteiro. Beatriz nunca descobriu, e a bem da verdade, chegou a pensar que não era nenhum nem outro. Era só e unicamente o brilho que Camille possuía e que tanto lhe incomodava. Tornaram-se inimigas no mesmo instante em que seus olhos se cruzaram. Foi a beleza desse olhar que levou Beatriz à destruir sua própria vida, por ciúmes.
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Já havia 15 anos desde o acontecido, foi na época do colégio. Ninguém entendeu o fato e nada ficou esclarecido nem mesmo a polícia local, tão eficiente, conseguiu desvendar tamanho mistério.Apenas algumas suposições, hipotéses.
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Foi quando encontraram um retrato, antigo, desbotado com a força que o tempo exerceu sobre ele. Era o retrato de dua meninas abraçadas. No chão havia uma boneca sem cabeça e podia se ver tambem a sombra do fotografo. Atras da foto estava escrito:

Tempus Fugit.

Tal menção não é algo que se lê todos os dias. Intrigado o Detetive Parkinson procurou saber sobre o significado para ver se achava algo mais sólido do que apenas o significado das palavras em sí. Foi quando a porta se abriu e um padre apareceu trazendo amarrado a uma cordinha uma ovelha.

Ele olhou para o relogio e disse:

- O tempo passa.

Parkinson começou a tremer. O padre lhe perguntou:

- Posso ajudar detetive? Franzindo a testa, com os olhos cheios de raiva e tremendo ainda mais, Parkinson respondeu:

- Não dessa vez, padre. A intimidade dos dois não passou despercebida aos outros políciais presentes. Quanto a ovelha, que já se acostumara ao som das palavras, à benção do seu vigário, assustada correu, mas não antes de derrubar o retrato deixando a mostra uma caixa de porcelana, que segundo Beatriz guardava o segredo do encanto de Camille. O encanto que lhe roubara a felicidade. Mas nessa epoca, 15 anos atras, nada disso era conhecido e por um capricho do destino, talvez nunca venha a ser.

Derrepente o detetive Parkinson tremendo agora compulsivamente, perdeu as forças nas pernas e caiu sentado no chão. O padre prontamente se ajoelhou para ajuda-lo. Sussurrou em seu ouvido umas poucas palavras que ambos conheciam. Parkinson agarrou-se ao terço que o padre trazia junto as mãos e naquele momento tudo veio-lhe à mente; o retrato, a caixinha de porcelena, Camille e Beatriz com sua doce voz cantando uma velha ladainha que dizia coisas de um mundo passado. Lembrou-se de sua infancia abstrata sem amor, sem amigos. Começou a chorar

Neste instante o padre atonito por tal cena arranca-lhe o terço das mãos e lhe dá uma tremenda bofetada. A ovelha começa a balir. Os olhos de Parkinson rodam em suas orbitas enquanto as lembranças revoam inusitadas em sua mente. Quinze anos desembrulham-se então e esparraman-se pela sala. Tudo foi se juntando durante os anos para explodir naquele momento. Ainda agarrado a batina do padre, o detetive confessa:

- Sim padre, fui eu, fui eu, eu que as matei, eu insuflei todo o ciumes, eu fui o causador da tragedia! Ha anos carrego esta culpa, nada pude fazer, mas no fundo sou culpado.

- Não diga asneiras Parkinson, vc era apenas uma criança na epoca. Componha-se, sei que você as amava mas essa triste fatalidade nada tem a ver com vc. Vc nem existia para elas, não pode se sentir culpado por arrancar a cabeça de uma boneca. Bom, eu te absolvo.

Parkinson abaixou-se lentamente e pegou a foto do chão. Olhou o verso do retrato e finalmente entendeu. Incrivelmente o padre estava certo. O tempo havia passado.

Tempus Fugit.

written by Sueli Aduan, Tina, Katia Mota, Sergio Cajado, Leo Metallica, Youkai



segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Virá impávido...Virá que eu vi



Um índio preservado em pleno corpo físico Em todo sólido, todo gás e todo líquido.
Em átomos, palavras, alma, cor, em gesto e cheiro. Em sombra, em luz, em som magnífico. Num ponto eqüidistante entre o Atlântico e o Pacífico. Do objeto, sim, resplandecente descerá o índio. E as coisas que eu sei que ele dirá, fará, não sei dizer. Assim, de um modo explícito. E aquilo que nesse momento se revelará aos povos Surpreenderá a todos, não por ser exótico Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto. Quando terá sido o óbvio.

Caetano


Eu disse com a voz mais suave e delicada que consegui, mas mesmo assim não pude evitar os olhos de espanto dos que estavam a minha volta. Olhares de desconfiança de uns, de zombaria de outros, e de... Ah! Não importa. Eram muitos e muitos os que ali estavam reunidos. E a bem da verdade, eu não estava nem um pouco preocupada em poupá-los de nada, não. A voz suave foi só uma maneira que encontrei por conta da minha própria profissão e de conhecimentos específicos a ela pertencentes. Eu sabia, mais cedo ou mais tarde todos, sem exceção, perceberiam que não estamos falando a mesma língua.

Após dizer tudo que estava atravessado em minha garganta, feito um bolo enorme me sufocando, enfrentei os olhares que se entrecruzavam.Até que o impacto visto por esse ângulo de expectador era engraçado. Mas, não era mais eu ali, parado olhando o ser olhado de toda essa gente, embasbacada em sua babaquice moral, seus credos, mitos, tabus e toda essa porcariada que segura a gente num plano rastejante.

Olhei novamente para cima e depois disse novamente olhando no fundo de suas almas perdidas:

- Não estamos sós.

Poucas coisas me embrulhavam mais o estomago do que este jeitão arrogante de coletivo prepotente, esse aceitar valores impostos sem questionar méritos, coerências ou critérios, incorporar sua intolerância doutrinária, negar o desconhecido com a certeza dos justos e impor a rigidez da ignorância. Mas o fato não poderia mais ser ignorado. Alan a meu lado foi tirando seus óculos lentamente, uma estranha luminosidade que começava a emanar de seu corpo foi calando os comentários do publico um a um.

À medida que iam percebendo o aumento da luz iam também abrindo suas bocas quase babando, talvez para absorver com mais sentidos aquele fato incomum.

Depois de por os óculos no bolso começou a desabotoar sua camisa e em seu peito pode-se ver que Alan não pertencia a este mundo. Em seu tórax havia um espaço vazio onde deveriam estar o coração os pulmões e as costelas. Não era um furo, seria mais um buraco perfeitamente redondo, recoberto com bom tecido humano. Neste buraco haviam cordas parecidas com a de um instrumento musical fazendo lembrar a boca da caixa de um violão. As cinco cordas com diferentes colorações faziam parte de sua fisiologia. Quando começou a falar suas cores e sua luminosidade aumentaram. Ninguém ousava falar uma silaba sequer.

Alan disse então:
-Sei que nesse primeiro momento não podem compreender e o silêncio tomará conta de todos. Nenhuma palavra, nenhum som, gemido, nada. Mas em pouquíssimo tempo, uma alta freqüência de ressonância e pequenas oscilações no corpo físico permitirão somente o uso de palavras que representem uma idéia, que não seja apenas um código aleatório.

E, então, não mais na contramão do mundo, como num quadro poético tinta e verbo colorindo as ações dos homens. Todos nos percebíamos a existência um elo, pois tínhamos aquela mesma luminosidade interior, o mesmo bolo entalado na garganta, a mesma afinação. Vibrações dentro de um mesmo tom. Todavia, não sabíamos até aquele momento que tínhamos uma historia e um passado em comum.

Esquecido há muitos e muitos anos e com ele a percepção exata de quem realmente somos e do quanto podemos.

Alan estava ali, justamente, para nos mostrar como nos unir, como dar força ao nosso coletivo adormecido, aquilo que nos transforma em seres humanos, herdeiros da luz.
E foi ai que sentimos.

Somos apenas um, com múltiplas personalidades e infinitos quereres.

Kátia Mota, Cajadomatic, Sueli Aduan, Placco Araújo, Claudia

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Olhares


Eu disse com a voz mais suave e delicada que consegui, mas mesmo assim não pude evitar os olhos de espanto dos que estavam a minha volta. Olhares de desconfiança de uns, de zombaria de outros, e de... Ah! Não importa. Eram muitos e muitos os que ali estavam reunidos. E a bem da verdade, eu não estava nem um pouco preocupada em poupá-los de nada, não. A voz suave foi só uma maneira que encontrei por conta da minha própria profissão e de conhecimentos específicos a ela pertencentes. Eu sabia, mais cedo ou mais tarde todos, sem exceção, perceberiam que não estamos...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Muito além das escadas.




Eram 23 pesarosos llances de escada até chegar à porta. O bolorento corredor era iluminado por uma única lâmpada que tremulava feito chama de vela. Não tinha muitas lembranças daquele lugar e simplesmente não entendia o que o levara ali novamente, poderia simplesmente ter ignorado o chamado.

Ao pisar as tábuas essas lamentavam sobre seu peso. Colocou a antiga chave na fechadura torcendo que ainda fosse a mesma combinação. Rodou lentamente, ouviu um leve estalido e pronto, a porta estava aberta.


Um grave cheiro de passado e de vento percorria a escuridão daqueles lugares com os quais o salão se vestia. Vozes pareciam dançar ao som de um leve assoviar ancestral que misturavam gritos e chamamentos. Livros observavam cada passo como o desfolhar de páginas que se debruçavam sobre os pés que caminhavam. E eis que subitamente pequenas lembranças se formam em sua mente, mas tudo são fragmentos difíceis de fazê-lo situar-se com exatidão. Um forte cheiro e a vertigem tomam conta de todo seu corpo.

Atraído pelo inesquecível aroma se dá conta de que não há uma só alma viva no apartamento. Tateia as paredes tentando encontrar o interruptor, pressiona-o e nada. Continua sozinho, num cômodo escuro e cheio de fantasmas.

Caminhei tanto sem nem mesmo saber qual o propósito disso tudo. Se é que há um. E o que me resta? Ficar no escuro e ainda por cima sozinho, gritou impaciente. E uma voz lhe respondeu....

- 23 degraus, você subiu nesta torre na esperança de encontrar o que não mais poderia ser encontrado. Apenas este apartamento vazio que contém suas lembranças, seus desejos. Seu grito me comove, mas não mais está aqui a quem buscas. Aqui só encontrarás a dor e a saudade.

Já sabia que esta era a voz de seu coração. Olhou pela janela e imaginou-se caindo, livre da angustia, das lágrimas diárias trazidas pelas doces lembranças, agora amargas. Debruçou-se no peitoril e não conseguia encontrar uma imagem que lembrasse o que apartamento um dia tinha sido, ou tido.

Excluir
Sem uma única imagem na memória seus olhos procuraram na vastidão do céu um alento. E ao olhar as longínquas estrelas se deu conta que nele também havia o mesmo brilho, o mesmo pó de que tudo é feito. Foi tomado por essa misteriosa impressão e resolveu que era hora de sair daquela janela, a tentação poderia se tornar insuportável. Voltou-se para o quarto, decidiu vasculhar o apartamento. Abriu uma gaveta e ali encontrou o que pensara ter se volatizado há muito nos vapores do tempo. Ali, onde o escuro tudo escondia um manuscrito. Com as mãos trêmulas e um olhar lacrimoso pude ler:

"O que é passado, presente?O que é a sensação de futuro, quando o espelho mais inusitado são as palavras que tecemos para nós mesmos? Eu sou você que sou eu lendo isso e encerrado neste apartamento que se chama vida, encerrado nessa carta, agora espelho, caminhamos ambos em busca do segredo maior. Deixei ao largo da memória tantas coisas e elas estão por aí... Como achar? Ouça as vozes..."

Excluir
Em meio a um turbilhão de sensações busca respostas. Só então se lembra de ter passado por um espelho enquanto percorria o cômodo, um espelho turvo de imagem distorcida.

Se observou, assustado constatou que a imagem projetada não era invertida como nos espelhos tradicionais. Ao longe ouviu um chamado, algo que parecia soar apenas em sua mente.

- Decifra-me... ou devoro-te..
- O chamado da Esfinge - reflete...

Tocou o vidro e assustado percebeu que a superfície não era sólida. O tato denunciou algo parecido com uma gelatina, gelada e fria.

Forçou o movimento e sentiu o braço atravessar a superfície, surpreso, decidiu ir além, ergueu a perna direita e seguiu para dentro do espelho.

Acordou assustado. O bolorento corredor era iluminado por uma única lâmpada que tremulava feito chama de vela. Não tinha muitas lembranças daquele lugar e simplesmente não entendia o que o levara ali novamente, poderia simplesmente ter ignorado o chamado.

Ao pisar as tábuas essas lamentavam sobre seu peso. Colocou a antiga chave na fechadura torcendo que ainda fosse a mesma combinação. Rodou lentamente, ouviu um leve estalido e pronto, a porta estava aberta.

E fim!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Uma chave para um recomeço.



"Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti." [ Friedrich Nietzsche ]

Janelas fechadas observo o quarto. Silêncio e som de pássaros Sobre a mesa um xícara com chá descansa. O bem-estar do chá, o pensamento longe , o prazer da escrita.

Começo ansiosamente e com as pontas dos dedos teclo os primeiros acordes.

Depois das mil noites de treinamento constante a recompensa de Sir Loyale, Mago do terceiro circulo da ordem de Balsam Phy, está em suas mãos, literalmente em suas mãos.
Então, atravessa a porta do templo de Sgardia e dirige sua atençao e palavra ao jovem Bardo à sua espera.
Obrigado por vir me buscar Grande companheiro mestre dos contos! Como estás meu bom amigo Herman?


Ótimo Loyale e você, meu bom, companheiro como estas? Conquistou a esfera do fogo celeste?


Sim. Estou ótimo como vê! Trago em minhas mãos a esfera sagrada criada por minha magia em mil noites a fio. O fogo celeste, a chave para a porta da gruta de Gissa e agora poderemos terminar nosso sonho meu bom amigo. Temos a chave. Alegria das alegrias, meu amigo, de posse da chave só nos resta seguirmos rumo à Gissa. E lá, meu grande companheiro, sem mais demora atravessarmos corajosamente os portais, enfrentarmos o que nos aguarda há milênios e só agora nos chega a possibilidade de vivermos todos não só das enfadonhas obrigações estipuladas por nossos medíocres governantes, mas deleitarmos das ocupações livres, dos pequenos prazeres cotidianos, das belas criações, das tarefas ditas sem importância.


Já pensou, meu amigo, que de posse dessa sabedoria somos chamados a um novo viver. Precisamos sair desse lugar, desse mundo mágico em que vivemos e sem demora irmos para outra dimensão para junto dos que nem sonham com esse lugar e tudo o que nele há. Ser livre do seu corpo individual. Viver sem jamais sentir dúvida. Ser coletivo. Uma alma, uma divindade. Ser livre de si mesmo e estar acolhido em uma mente coletiva sem diferenças. Todos sendo Uno, sem matéria, sem corpo físico, apenas energia. Voltar ao estado ancestral original do fluxo. Lá poderemos nos dissolver. Todos seremos Uno. Sem dor, sem vontades. Que maravilhoso será não? É a cura final de nossa natureza que desde o inicio esteve corrompida pelas peculiaridades do vazio, este, que jamais será preenchido sozinho. Temos que ser uma unidade novamente. Chame os outros estamos partindo rumo à terra de Voguilishrat. Os nossos companheiros guerreiros que tanto esperaram por este momento, nosso grupo de aventureiros que vagou por tanto tempo sobre as terras e o pó desta civilização.

Calma companheiros! É preciso cautela para não correr o risco de um eterno recomeçar. E apesar de tanto tempo sonhando com esse momento sinto desapontá-los. Não partirei, mas sigam mesmo sem mim. Usufruam da magia de Voguilishrat e sejam todos Uno. Sem matéria, sem diferenças, dissolvam-se e vivam sem dores e sem vontades. Eu necessito das minhas dores, minhas diferenças. Com as janelas fechadas e o som dos pássaros ansiosamente escrever a última carta explicando que o retorno é eterno e vivemos no eterno retorno. Gissa vivia em mim, eu vivia nela como um pensamento que atravessa o céu da boca. Retornar aqui, vendo as imagens de um passado presente como uma Samsara nos inquirindo do nosso caminho é ter a certeza do ir e vir, o devir.


Loyale sorria em algum lugar.


Todos os outros companheiros de luta e aprendizado compareciam naquela carta para relatar, por meio das minhas palavras, do sucesso do persistir. E o sucesso, companheiros, traz consigo um infinito de possibilidades.
Como num passe de mágica, a cada conquista nos sentimos mais fortes, determinados, senhores de si, mas que sabemos nós das coisas do mundo? E o que nos reservam caminhos nunca antes navegados. Longe de mim o medo. Já disse e repito é preciso cautela.
Portanto, senhores, minha decisão está tomada. Somos fortes, mas somos poucos. Que as ordens sejam dadas e que se juntem a nos, nessa empreitada, toda a legião das montanhas e das planícies. Chegaremos a Gissa ao amanhecer e de lá só voltaremos com o sopro de vida que renovará as forças do mundo.
E cobriremos o solo, o ar, a água e o fogo como o espírito sagrado da natureza. Um véu que ajudará o equilíbrio das coisas. Seremos enfim heróis, sem nomes, sem rostos, sem identidades.


Loyale, bom amigo, se esforçaste tanto para criar a chave! Compreendo-o, companheiro, forneça calor humano para o mundo por nos. Estaremos contigo em presença constante e a cada sopro de vento que sentires ao rosto será o mesmo que um sussurrar de saudades ao teu ouvido.


Vamos partir agora. Esta última jornada enfim começou...

FIM

Youkai, Tina, Alisson da Hora, sueliaduan